Prioritários

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Aparentemente, o atendimento prioritário obrigatório é polémico.

Sempre pensei que as pessoas iriam aceitar passivamente que alguém com deficiência, com uma doença incapacitante, com um bebé de colo, com uma gravidez, ou alguém idoso lhes passasse à frente numa fila. Até achei que alguns pacóvios oferecessem o seu lugar de bom grado à velhinha com ar inocente e cansado

Felizmente, constato que fui ingénua.

Já assisti a uma série de episódios em que os cidadãos confrontaram estes oportunistas, fazendo valer-se da sua condição de pessoas de bem. Afinal, a tal velhinha sabia onde ia antes de sair do conforto do lar. Se não levou uma cadeira desdobrável consigo, azar o dela. Tem é de aguentar na fila atrás dos 20 marmanjos de vinte anos que chegaram primeiro. Os marmanjos também têm direito à vida e não é legítimo que a velhinha use a manha e a experiência da idade para lhes passar à frente. Que se lixe a velha e a empatia! Os marmanjos têm uma PS4 para pagar e mal podem esperar para experimentar o jogo novo.

Confesso que já caí algumas vezes na esparrela dos prioritários, até porque nenhum é tão mau quanto a grávida. O meu lado mais soft leva-me a ter pena delas… Ainda por cima sabem fazer-se de vítimas, parece que nas primeiras semanas de gravidez as obrigam a frequentar um curso chamado “como aproveitar ao máximo a condição de gestante para explorar o próximo”.

É vê-las vermelhas, inchadas, ofegantes, lançando olhares de súplica e sofrendo em silêncio, para que pensemos que até são boas pessoas.

Não são!

O que a grávida quer é passar à frente de todos para depois se ir encher de churros na zona de alimentação do centro comercial. Provavelmente até já encomendou um e está a fazer aquela fita toda porque sabe que o churro está a arrefecer (e os fritos frios perdem a piada toda). A mim não me enganam mais. Esperam como os outros, que eu também esperei para nascer e gravidez não é doença.

Poucos otários caem na esparrela, mas volta e meia lá há alguém que deixa passar os chamados “prioritários”. E aí nós, as pessoas de bem, fazemos a nossa parte e reclamamos. No mínimo lançamos um olhar de desdém, para que o oportunista perceba que nem todos são patetas. O que interessa a lei? Que direito tem uma gaja de me passar à frente só porque decidiu aumentar a população mundial? Eu trabalho e pago impostos, provavelmente até lhe estou a pagar a baixa para ficar em casa no sofá como uma lontra… Ainda tenho de me calar enquanto a deixo passar à frente na fila do supermercado?

Era o que mais faltava.

Algumas ainda respondem irritadas, todas cheias de razão. Deve ser das hormonas… Em pleno ano 2017, só engravida quem quer. Se lhes custa estar em pé, deviam ter pensado nisso antes de abrir as pernas. Eu é que não tenho culpa nenhuma! Já lhes pago a baixa, o abono dos filhos, a comparticipação dos livros escolares e sabe Deus mais que invenções “natalistas” os governos arranjam. Ainda esperam que lhes ceda o lugar na fila, de livre vontade, e sem resmungar? Só porque está na lei?

Nem pensar!

Até podia acabar este texto com as palavras de um grande e sábio taxista sobre as leis e o seu propósito, mas a polícia do politicamente correcto ia-me censurar e eu já não estou para isso.

Só vos digo: deixem de ser mansos e façam como eu. Não facilitem a vida a essa escória dos “prioritários”.

Depois não digam que não vos avisei.

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