QUANDO AS IMAGENS FALAM POR TODAS NÓS

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Nos últimos meses proliferaram imagens de mulheres insurgindo-se contra o poder instituído. Não que não existissem já fotografias impactantes de mulheres em luta, mas estas, talvez porque tantos anos passaram, fazem parar para olhar.

Estas mulheres sem medo usaram o seu corpo e o seu rosto para fazer frente a alguma ideologia, a um poder, no decorrer de alguma manifestação.

Foram apanhadas desprevenidas por uma câmara fotográfica; nenhuma destas mulheres – acredito nisto profundamente – esperava ou desejava alcançar as luzes da ribalta. Só queriam ganhar a luta que decidiram travar na rua e essa vitória, por si só, já seria o bastante.

Estas mulheres não se limitaram a ficar em casa a lamentar-se: vieram para a rua fazer o que sempre soubemos fazer melhor, lutar. Porque sempre lutámos. E somos especialistas em lutar sem armas, sem paus, sem pedras nem ferros: de igual para igual, com a nossa presença em gritos ou num silêncio e num olhar destemido que fala.

Poderia ser um homem no lugar destas mulheres que vemos nas imagens? Poderia ser uma criança? Certamente. Mas há qualquer coisa no rosto de uma mulher que, numa luta individual contra uma multidão que oprime, lhe confere uma espécie de força natural que torna estas imagens magnéticas: seja a enfrentar militares, seja a derrotar com um sorriso ideologias xenófobas.

Não sei como não olhar para estas imagens com uma admiração incrível e um exemplo extraordinário.

mulheres luta suecia

Ficar-me-á sempre na memória o braço erguido sem medo de Tess Asplund. Um braço que se erguia em marcha contra manifestantes neonazis. Ela marchava contra eles. Eles caminhavam contra ela na mesma estrada, no mesmo asfalto. Ela, uma ativista negra, destemida, sozinha de olhos sem medo. Eles, homens grandes e loiros, determinados de raiva e de ódio.

Outro exemplo. O corpo de Leshia Evans, sereno e plácido num vestido esvoaçante, contra polícias armados até aos dentes: a cabeça levantada como quem sabe exatamente para onde vai e porque razão ali está. Leshia foi propositadamente para a rua para se manifestar contra a brutalidade infligida na comunidade negra do Louisiana.

Pela história, muitas outras mulheres diferentes destas tiveram a sua luta. Talvez lutas ainda mais difíceis, a Grande Luta pela Afirmação. Algumas com flores, outras com a sua presença sem medo.

Não sei se a luta pelos direitos das mulheres e das meninas, se a luta pelo Direito à Igualdade de outras minorias esmagadas, acabou. Ou se o caminho até à igualdade ainda é longo e cheio de espinhos.

Só sei que quando uma mulher enfrenta uma marcha de neonazis, ou polícias no cumprimento das suas funções, ela não está sozinha.

Há muitas de nós atrás de si.
As do Presente e as que vêm do Passado.