QUANDO PERDEMOS ALGUÉM

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Quando perdemos alguém, contra a nossa vontade, dói-nos. A perda é algo com o qual é difícil lidarmos. Sobretudo, a perda de alguém de quem gostamos, que amamos ou por quem estamos apaixonados.

Num primeiro impacto, quando a perda se dá, são demasiadas as emoções que nos dominam. Que nos atordoam. E, até, que nos cegam. Deixamo-nos dominar, de cima abaixo, pela dor, pela impotência, pela agonia, pela revolta e frustração, pelo desespero e até pela fúria. Temos vontade de estrebuchar, de partir tudo, e de nos sentarmos no chão como uma criança de cinco anos, num berreiro atroz, de baba e ranho. Não porque queremos obrigar o outro a ficar contra a sua vontade, mas porque não conseguimos lidar com a dor. Que é enorme.

Sozinhos, deixados a sós, à força, com a perda, só queremos chorar. Queremos chorar para que a dor acalme. Queremos chorar para que a dor que sentimos a queimar-nos o peito, pare. Queremos chorar porque a dor não nos permite respirar; porque nos agride tão violentamente, que temos, no extremo, vontade de desaparecer. Não porque queremos acabar com a nossa vida, mas porque não sabemos, naquele instante, lidar com ela. Porque, minuto após minuto, segundo após segundo, somos obrigados a enfrentar o monstro que, agora, vive em nós. Este monstro ácido. Este monstro, que é uma bola de fogo alojada na nossa garganta, que nos agoniza, que não nos deixa respirar. E que faz doer cada milímetro de carne do nosso corpo.

Quando perdemos alguém contra a nossa vontade e nos vemos privados da sua companhia, dói-nos. E negamos a perda. Enganamo-nos. Dizemos que talvez haja ainda algo que possamos fazer para reavermos o que acabou, para termos mais uma oportunidade. Negamos, porque, uma vez mais, não sabemos lidar com a dor. Negamos, porque não queremos uma vida sem o outro. Negamos, porque não sabemos lidar com a frustração. E porque queremos ter mão na dor.

Negamos, sim, porque amamos.

«O tempo é nosso amigo», dizem-nos. E nós acreditamos. Acreditamos que o tempo vai suavizar a perda. Que o tempo, ao trazer-nos tantas outras coisas novas, vai relativizar a importância de quem perdemos. Porque, segundo se diz, a perda de uma amizade cura-se com uma nova amizade, a perda de uma paixão cura-se com uma nova paixão e a perda de um grande amor cura-se com outro amor.

E é verdade. Na maioria das vezes.

Nessa maioria de vezes, o tempo ajuda-nos a esquecer. Distrai-nos. E deixamos que nos faça ver que há tantas outras coisas melhores no mundo, que há tantas outras pessoas igualmente especiais ou ainda mais especiais. O tempo, os amigos, as pessoas que nos conhecem, passam esse tempo a dizer-nos: «Ela não te merece!» ou «Ele não é suficiente para ti. Mereces melhor!» E nós acreditamos. Nós acreditamos que ela não nos merece e que merecemos melhor do que ele. E o sofrimento acaba. Porque «só importa quem fica», também costumamos dizer. Não quem não quer ficar. Com o tempo, isto são motivos suficientes para deixar de mexer connosco. Às vezes, até nos sentimos aliviados por assim ser. Por não termos aquela pessoa na nossa vida. E até nos admiramos porque não sabemos, hoje, onde tínhamos a cabeça para nos deixarmos tocar por alguém assim.

E seguimos em frente, felizes, tranquilos, porque tudo está no lugar certo. Tudo está como deveria estar.

Mas nem sempre é isto que acontece. Nem sempre isto é verdade.

Às vezes, o tempo não nos faz esquecer. Às vezes, o tempo abranda, ocupa-nos a cabeça, distrai-nos aos bocadinhos. Apenas. Às vezes, tendo passado pouco ou muito tempo, continuam a existir dias em que sentimos a perda da mesma forma intensa e violenta com que sentimos no dia em que realmente perdemos. Às vezes, continuamos a levar os dias, os meses, os anos, a tentar lidar com a dor, a tentar seguir em frente. E, se há dias em que acreditamos — mesmo! — que estamos a conseguir, que já esquecemos, há outros que nos atordoam, que nos devolvem todas as emoções, de repente, e que nos afundam numa angústia violenta. De novo.

O choro intenso, que chorámos vezes sem conta no início, acaba: porque o tempo nos mostra que não nos adianta chorar. Que não nos adianta estrebuchar. Que não nos adianta — porque as lágrimas não nos devolvem quem já aqui não está.

E é, então, nesse instante, em que percebemos que as lágrimas de nada adiantam, que aprendemos a chorar sem elas.

Aprendemos a chorar nas músicas que ouvimos, em loop, durante dias a fio, só porque nos relembram quem e o que perdemos. Aprendemos a chorar nas palavras que escrevemos, que nos parecem arrancar o coração de dentro do peito e apertá-lo com força entre as duas mãos. Aprendemos a chorar nas histórias que lemos, que nos tiram o ar, que nos prendem o olhar fixo no vazio. Aprendemos a chorar nos silêncios que fazemos, porque sabemos que já nem sequer adianta falar sobre o que ainda sentimos. Que as palavras, como as lágrimas, não trazem de volta quem não quer voltar.

Aprendemos a viver com as lágrimas a quererem sair-nos do peito, mas sem conseguirem. Elas estão aqui dentro, algures. Nós sentimo-las. Porque nos dói. Mas não saem.

E levamos dias, meses e anos assim.

Um dia, há finalmente um momento em que estamos ali, sentados, uma vez mais, e debruçados sobre a nossa própria dor, que ainda nos dói, e temos a leve sensação de que é desta. Que é desta que vamos, finalmente, chorar. Sentimos as lágrimas a quererem despontar dos nossos olhos. Sentimos a acidez a subir até eles. E, finalmente, depois de meses, e meses, choramos.

Mas o que choramos não é um berreiro. Aliás, o que choramos não é sequer um choro. O que choramos é só um gemido. Um gemido quase mudo, cheio de dor. E outro. E mais outro. E as lágrimas que choramos — percebemos, então — mal chegam, sequer, para nos humedecer os olhos. Quanto mais para nos aliviar a dor…

Quando perdemos alguém que decidiu sair da nossa vida, contra a nossa vontade, dói-nos. Às vezes essa dor desaparece. Noutras, fica — talvez para sempre. Porque o outro pode ter saído da nossa vida, mas não saiu de nós. Apesar da razão. Apesar do tempo. Apesar de querermos.

É que há lutos que, infelizmente, nunca terminam.

 

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