QUERES PERDER PESO? PERDOA por Marine Antunes

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Lamento mas não sei dar dicas alimentares. A única coisa que te poderia dizer, se quisesses perder um quilinho extra, era que deixasses de comer castanhas. Mas não o vou fazer porque isso parece-me demasiado cruel. E não acho que sejas assim tão má pessoa.

Desse peso, nada sei. Mas sei de outro. Sei daquele que também incomoda e nos rouba o sorriso, que também não cabe nas calças porque não cabe em lado algum.

Ela perguntou-me: Como é que conseguiste perdoar-lhes?

Porque não havia outra coisa a fazer. Não os perdoei por eles, perdoei-os por mim. Aliás, eles nem sabem deste meu perdão. Eles nem me pediram perdão. Mas eu perdoei na mesma. Acredita, não tinha outra opção – não tenho mesmo tempo, nem coragem nem disponibilidade para odiar ninguém, disse-lhe eu.

Admiro aqueles que têm tempo para odiar. É preciso coragem para tornar o ódio de estimação mais importante que a sua própria paz interior e é preciso tempo e disponibilidade para fazer tudo aquilo que odiar implica: falar mal da pessoa em questão, pensar nela a toda a hora, perder energia, vasculhar a sua vida, imitar-lhe as pegadas, uma data de tarefas que são uma canseira dos diabos. Acho que, como sou meio calona, nunca poderei odiar ninguém. Dá mesmo muito trabalho.

E ela continuou, ainda sem entender: Mas quem é que perdoa, quem nunca lhe pediu perdão?

E eu mantive a minha convicção: Eu. Não preciso do perdão daqueles que me magoaram para nada. Eles nem estão arrependidos. Acho, até, que se dissessem que estavam, eu não acreditaria. É melhor assim.

Ela continuou sem entender. Eu não lhe fazia muito sentido. Acho que lhe pareci fraca. Era-lhe estanho que eu baixasse a cabeça e perdoasse quem me tentou tirar o chão. Mas para mim, não estou a baixar a cabeça. Estou a levantá-la. Estou a seguir em frente, com os pulmões carregadinhos de ar, as costas sem peso, o sorriso sem lacunas. Estou a caminhar porque não devo nada a ninguém e, melhor, porque, para mim, ninguém me deve nada.

Não lhes estou a fazer favor nenhum. Estou a fazer um favor a mim mesma. Não compro a guerra que compraram contra mim. Não compro o ódio que me encomendaram. Odiar-me é uma escolha deles, não minha. Não tenho nada a ver com isso. E eles têm tempo, eu não.

Ela continuou sem entender. Acho que ficou triste. Acho que também queria perdoar. Acho que também queria conseguir.

Olhei para ela, com compaixão. Quem me dera que ela soubesse que é mais fácil perdoar que odiar. Que, se consegue odiar, que é tão complicado e exigente, conseguirá, com toda a certeza, perdoar, que é tão mais fácil e leve.

Mudámos de conversa. Ela estava cansada desta. Lembrar-lhe dos seus ódios, cansou-a. Ela sorriu-me, gabou o meu vestido novo e fez-me um elogio:

Estás mais magra!

Agradeci-lhe e não resisti em dizer-lhe o meu segredo: Pois estou. Queres perder peso, também? Perdoa.

 

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