O RADICALISMO DO AMOR E A CRUELDADE DA VIRTUDE

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Keep, ancient lands, your storied pomp!” cries she
With silent lips. “Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!

“The New Colossus”, Emma Lazarus

Um dos meus pesadelos recorrentes, desde quando era pequenina, pode estar, aos poucos, a transformar-se em realidade. Talvez todos tenhamos destes medos profundos, medos (quase) irracionais que nos paralisam. O meu é daqueles medos do insondável do escuro que nem mesmo quando se acende a luz desaparece. Não sei bem porquê, desde criança, um dos meus maiores terrores é o do mundo ao contrário, do estilo em que toda uma população decide dizer que o céu é feito de algodão-doce. É um medo difuso, omnipresente, esconde-se nas pequenas coisas e manifesta-se no horror das grandes. É o medo que me provoca ataques de pânico e que me faz querer comer todo o chocolate do supermercado, e nem assim…

Imaginem uma sala com um quadro branco. Imaginem três pessoas cegas – mesmo cegas, sem simbolismos ou eufemismos – que discutem a cor do quadro branco com convicção e teimosia. Cada um defende a sua cor – todas, menos o branco – e sei que, se me juntar à conversa, serei apenas mais uma voz a defender mais uma cor. Isto porque, estranhamente, as outras pessoas que veem não encontram nada de estranho neste cenário. No pesadelo, sei que se gritar que o quadro é branco, a minha “opinião” terá uma probabilidade estatística de 25% de sucesso, não mais. Há que votar na cor do quadro branco e quem tiver mais votos ganha. Ou quem gritar mais alto. Tendo ganho, passamos todos a dizer que o quadro branco é verde ou roxo. Mas eu continuo a ver, apenas, um quadro branco. É, sei hoje, o terror inconsciente da dissonância cognitiva.

Obviamente, os meus pesadelos de criança não eram assim tão elaborados e metafóricos. Eram só pesadelos surreais, de injustiça, de negação da minha verdade. De terror. Foi esse terror que me motivou a tirar o curso de Direito. Uma licenciatura, um mestrado e depois um doutoramento, todos em busca de justiça. Numa corrida contra o terror de ser apanhada pela injustiça. Tenho a sensação que corri devagar, mas pode ser a tão falada crise existencial do pós-doutoramento. Ou pode ser por causa da vitória de Trump, a guerra na síria, o crescimento do populismo e da extrema-direita na europa, a crise económica… Não sei.

Por falar em Trump, no dia 9 de novembro senti que o meu pesadelo era real. Mesmo sabendo que a Hillary teve mais quase 3 milhões de votos do que o Trump, houve milhões de americanos que votaram nele, os suficientes para que ganhasse nos Estados decisivos e, consequentemente, as eleições. Confesso que nunca acreditei que isto fosse possível. O meu amor pelos americanos fez-me acreditar que não o fariam. Não, eu não acho que os americanos sejam especialmente estúpidos. O meu erro foi achar que só uma pessoa estúpida votaria em Trump.

Noutro dia, no almoço de uma amiga, estava um amigo comum, americano, que se sentou mesmo ao meu lado. As eleições americanas surgiram em conversa e, de repente, o horror: o meu amigo votou no Trump. De repente, estava sentada ao lado de uma pessoa que votou – mesmo! – no Trump. Nos primeiros minutos fiquei tão espantada que não tive grande reação. Depois, fiquei zangada. Tão zangada que quase nem conseguia olhar para ele. Depois, impondo-me algum controlo, tentei argumentar e descobrir porquê. Porque sei que ele não é estúpido. É inteligente. Não sei se é feminista (nunca perguntei), mas sei que não é misógino ou machista, não defende o assédio sexual, não é racista (nem branco é), não é xenófobo. Nem de Direita é. Talvez tenha sempre votado no partido Democrata. Não votou em Hillary e nunca votaria em Hillary. Preferiu votar no Trump, apesar de – como me explicou – discordar de 99% do discurso do homem em quem votou. O meu amigo não votou na Hillary porque acredita que, se a Hillary fosse Presidente, haveria uma 3.ª guerra mundial. Considerou preferível termos machismo, racismo, xenofobia, e o que venha aí, a termos uma 3.ª GM, o que é bastante razoável.

Afinal, o que mais me incomodou do almoço não foi estar sentada ao pé de alguém que votou no Trump. O que me mais me incomodou foi a minha reação inicial. Foi a minha incapacidade (momentânea) de tolerar. Foi o facto de ter questionado a minha estima. Nesse momento percebi que estava diferente. Em 2007 – em plena e conflituosa campanha da IVG, da qual participei – alguns dos meus melhores amigos eram fortes defensores do “Não”. Passámos várias horas a conversar – amigavelmente – sobre as nossas divergências, sem rancores, mesmo sabendo que não iríamos mudar de opinião. Há 10 anos, portanto, não me ocorria questionar a minha estima por alguém em função das suas opiniões políticas. O que é que mudou?

Não vale a pena dizer que “não é a mesma coisa”, que o Trump é o anti-cristo e outros disparates do género. No referendo da IVG estava a decidir-se – literal e radicalmente – a vida e a morte. A vida das mulheres que morriam em consequência de abortos clandestinos, a vida de mulheres com problemas médicos que morriam porque lhes era negado o aborto. E, para quem acredita que a vida de um embrião tem o mesmo valor da vida de uma pessoa nascida, a questão era igualmente “radical”. As coisas são sempre um pouco as mesmas porque, ao contrário do que se passa nos meus pesadelos, quando olhamos para o quadro branco do futuro e do certo ou errado, somos todos igualmente cegos.

Será que o meu amigo tem alguma razão? Iria a Hillary presidente provocar uma 3.ª GM em virtude das suas políticas para o médio oriente? Compreendi que era cega quando tentei demonstrar – nas semanas após o nosso encontro – que o meu amigo votante em Trump não podia ter razão alguma em associar a Hillary a um risco mais intenso de uma 3.ª GM, e que, por isso, tinha sido mais uma vítima das correntes de “fakenews” e desinformação que tanto marcaram estas eleições. Durante uns dias mantive-me nesta lógica: alguém que acha que a Hillary representa um risco de 3.ª GM e, por isso, vota no Trump, é apenas mais uma infeliz vítima das teorias da conspiração e das “fakenews”.

Contudo, quanto mais leio sobre os conflitos no médio oriente – em especial, sobre a guerra da Síria – e quanto mais converso com quem percebe mais disto do que eu, mais confusa fico. Continuo a achar que a Hillary não estaria disposta a provocar uma 3.ª GM. Continuo a achar que o risco de termos um conflito armando global é mais intenso com um Presidente – como Trump – que não controla as palavras, que reage impulsivamente, que desdenha as regras da diplomacia, que desmerece os esforços da ONU, que tem o forte apoio da indústria de armamento americana, que elogia o Rodrigo Duterte (Presidente das Filipinas) e encontra em Putin um bom exemplo de liderança política. No entanto, é possível que esteja enganada.

É tentador querer qualificar de estúpido, racista, machista, etc., qualquer pessoa que vote ou apoie o Trump. E Deus sabe que muitos são isto tudo. E tantos outros já perderam a noção da realidade. É mais fácil reduzir o outro ao “mal” e quebrar a linha de diálogo e compreensão que – em tolerância – nos permite conviver na divergência e construir caminhos de compromisso. A lógica do “não negociamos com terroristas” é hoje amplamente aplicada a qualquer “ismo” ou “ista” que nos desagrada. É a vitória do radicalismo absurdo.

E é do absurdo que vivem as redes sociais. Na guerra dos likes e das visualizações, são as narrativas de extremos, de títulos sensacionalistas ou de emoções fáceis quem está a ganhar. A certa altura, não sei se esta guerra não será – a longo prazo – a mais perigosa de todas. Se perdemos o espaço mediático para a moderação, a tolerância, o compromisso, esse espaço será ocupado por alguma coisa. Há vários comentadores que já perceberam isto, que sabem exatamente o quê e como escrever, reduzindo pontos de vista a basismos extremos e transformando assuntos complexos em polarizações de tudo ou nada. A certa altura, torna-se difícil resistir e não entrar na onda do imediatismo superficial do comentário social.

É o meu pesadelo a tornar-se realidade.

É ler um comentário a um artigo meu (aqui), em que a leitora (Margarida) afirma o seguinte: «Esta argumentação está ancorada em areias muito movediças porque a discriminação não tem nuances». Margarida, se a argumentação fosse sempre linear – sim ou não, certo ou errado, bem ou mal – vivíamos num mundo da Marvel dos anos 50. Uma boa argumentação move-se sempre em areias movediças precisamente porque todos os assuntos integram distintas perspetivas e, por vezes, a diferença entre uma e outra perspetiva é delicadamente subtil. As discriminações têm nuances, sim. Têm tantas nuances que há até uma coisa que se chama “discriminação positiva”, que permite a criação de quotas, por exemplo. Claro, há muitas pessoas que – talvez como a Margarida, caso este comentário tenha sido o resultado de uma reflexão séria sobre a discriminação, e não somente a primeira coisa que lhe passou pela cabeça porque não gostou do que leu –, crendo que não existem discriminações com nuances, são contra qualquer forma de discriminação positiva. São pessoas que não concordam com as quotas para mulheres, por exemplo, porque entendem que se a lei impuser um número igual de mulheres e homens no parlamento está a discriminar contra os homens bons que terão de ficar de fora e a minar a meritocracia. É também em nome da “igualdade” – uma versão da igualdade – que estas pessoas atacam qualquer modelo de quotas.

A intolerância, o extremismo, a incompreensão, o radicalismo, todos estes fenómenos começam com quem – por melhor que seja a intenção – afirma que não existem nuances. Que ou é assim, ou é mal. Certo ou errado.

É o meu pesadelo a tornar-se realidade.

É ter que explicar a alguém que fazer um estudo científico comparativo sobre o desempenho de médicos homens e mulheres (aqui) não é uma forma de discriminação, contrária à igualdade de género. É descobrir que há pessoas (espero que sejam poucas) que não compreendem de todo o que é a ciência. Que não compreendem a diferença entre a ciência e a política (ou a necessidade de ter alguma razão de ciência para fazer política). Que acham que não deveriam ser feitos estudos científicos que autonomizem as suas análises em função do género, da idade, da cor da pele, etc., porque tais estudos são “discriminação”, e a discriminação é uma coisa feia. Que mais vale, portanto, mantermo-nos na ignorância e desistir de compreender a sociedade. É fechar os olhos e, em profunda cegueira, recorrer à fé, esperando que a sociedade magicamente se transforme no ideal que temos na nossa cabeça.

É o meu pesadelo a tornar-se realidade.

Recentemente, a líder do CDS, Assunção Cristas, cunhou um novo termo sobre como fazer política, apelando ao “radicalismo do amor”. Duvido que a intenção tenha sido esta, mas sou livre de a interpretar, pelo que me parece uma excelente ideia. Contra o extremismo e o basismo das novas tendências opinativas das redes sociais, a melhor resposta é mesmo o radicalismo do amor. Porque, naquele almoço, o meu amor soçobrou por uns instantes. Como a minha capacidade de amar é infinita – o meu amor incondicional pela humanidade é a premissa da minha existência, para lá do egoísmo do dia-a-dia – então talvez haja algum excesso de contágio com as redes sociais que me esteja a fazer mal.

Porque se a aniquilação da “verdade”, a descredibilização da ciência, e a adoção do absurdo como modelo de opinião correspondem ao meu pesadelo, há tantas outras pessoas com tantos outros pesadelos que se têm transformado em realidade. Para muitas pessoas, a destruição de um conceito de género biológico – as mulheres são mulheres e os homens são homens, as mulheres sabem cozinhar e os homens não usam saias – corresponde ao seu pior pesadelo. Para muitas pessoas, a ausência de uma clara divisão entre classes, géneros, raças (e até, categorias literárias ou musicais) equivale à queda inevitável num abismo sem retorno. Se eu tenho medo quando imagino Trump Presidente ou quando leio notícias falsas, estas pessoas ficaram aterrorizadas com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou durante os 8 anos em que Obama foi Presidente (e ainda há as escandalizadas com a atribuição do Nobel da literatura ao Bob Dylan).

Obviamente, não estou a equiparar – em termos de razão – os nossos pesadelos. Para estas pessoas, a liberdade, a igualdade, a diversidade, podem ser um pesadelo. Não têm razão. Para mim, a irracionalidade é um pesadelo. Espero ter razão. Não tendo razão, tais pessoas existem e têm medo. A minha função, como cidadã movida pelo radicalismo do amor e comprometida com a construção de uma sociedade livre e tolerante, é dar o primeiro passo e tentar compreender o seu medo. Compreender para, viabilizando o diálogo, desconstruir o medo e tentar confortar estas pessoas (que estão tão zangadas, confusas e assustadas, que preferiram fechar os olhos à demagogia e votar num palhaço enraivecido). Ora, eu não consigo fazer isto se excluir estas pessoas do diálogo, se as colocar à força numa categoria do “mal”, se as qualificar de “istas” disto ou daquilo, ou se lhes der a entender que – se fosse eu a “mandar” – estas pessoas perderiam o seu espaço de liberdade. Eu não posso oprimir para promover a liberdade e a igualdade. É como fazer uma ditadura para defender a democracia… Parece uma boa ideia… só que não.

É fácil amar quem ouve a mesma canção, fala a mesma língua e concorda com tudo o que dizemos. Difícil é amar o que nos parece racista, machista, quem discorda, quem nos afronta e confronta, obrigando-nos – por entre areias movediças – a ir além dos limites seguros da nossa razão para repensar argumentos de modo a explicar e acalmar. Difícil é combater o medo e a ignorância com amor e compreensão. É aqui que reside o radicalismo do amor. É amar o xenófobo, o homofóbico, o corrupto, o ladrão, o pedófilo. Quando todos formos capazes de amar o pedófilo, aí sim, teremos dado o primeiro passo para uma sociedade radicalmente pacífica. Naturalmente, porque amar não é concordar, nem tudo permitir. Amar é manter o diálogo na discordância sem reduzir o outro ao basismo do mal, sem transformar o outro num monstro, num “estrangeiro” (no sentido do Camus) ou num “alien” (porque incapazes de reconhecermos no outro alguém potencialmente igual).

Quando a Isabel Moreira – de quem gosto muito – escreve que «Se achas mesmo que a liberdade de expressão não deve ter limites e que não devemos ceder à autocontenção do discurso, és de direita, sabias?» (aqui) está a esquecer-se do radicalismo do amor. A Isabel diz que quem opta por continuar a usar linguagem pouco inclusiva ou contar uma anedota sobre deficientes – e, mais até quem, tendo mudado a linguagem e realizando a autocontenção sugerida, defende o direito dos outros a não o fazerem – não pode ser de esquerda. Com isto, a Isabel optou por uma linguagem de exclusão, de alienação de todas as pessoas que, sendo a favor da igualdade de género, não concordam com a imposição de uma linguagem única no discurso social (que nem tem de ser público). É o radicalismo – não do amor – mas do “ou estás comigo” ou “estás contra mim” que nada ganha, nada educa, nada promove a não ser a intolerância e o entrincheiramento ideológico.

Pouco me interessa que a virtude esteja do lado da Isabel (que até está). Porque a virtude também pode ser cruel. E entre a crueldade da virtude e o radicalismo do amor – da tolerância e aceitação de quem é menos virtuoso – escolho o radicalismo do amor.

Por uns segundos, voltando ao almoço fatídico e ao meu amigo que votou no Trump, senti-me menos tolerante e capaz de amar incondicionalmente. Não gostei. Prefiro regressar ao radicalismo do amor. À infinita paciência e à compreensão. À capacidade de resistência ao absurdo e à irracionalidade, transformando a discordância numa ferramenta de diálogo e educação (bilateral). O que me parece é que não há grande espaço, nas redes sociais, para o radicalismo do amor. É na internet que encontro pessoas fanáticas, extremistas, radicalmente intolerantes, incapazes de compreender perspetivas distintas, incapazes de reconhecer razão ao outro (e aqui me incluo). Na realidade, no dia-a-dia, cara a cara, é raro encontrar pessoas com estas características. É possível que, realmente, a internet seja o palco onde o que interessa é gritar mais alto. Porém, quando a Michelle Obama disse “when they go low, we go high”, não me parece que esteja a referir-se a gritar mais alto. Se metade das pessoas que fez like ou partilhou o belíssimo discurso da Michelle compreender realmente o sentido do “go high”, teremos, certamente, em 2017, uma sociedade melhor.

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