REFUGIADOS EM NÓS por Bárbara Alves da Costa

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O Domingos foi salvo. Tem hoje 22 anos. Vive em Portugal. Cresceu. Mexe em computadores, como ninguém. Imigrou. Chegou sem nada e deu-nos tudo. Nunca mais deixei de o seguir.
E nós e eu, entretanto, mudámo-nos. Este ano. Da cidade para o campo. De Cascais para Grândola.  Para um monte no Alentejo. Pai, mãe, crianças, avó. A vida assim o ditou. Começar de novo. Uma obrigação. Uma necessidade. Numa vida que é uma estrada cheia de surpresas.
Leio agora, tantas certezas nas redes sociais, questiono-me se estas pessoas vivem, de facto, ou se se limitam a abrir a boca, sem se ouvir.
“Temos medo de receber pessoas. Os outros que as recebam! Temos tanta pobreza na rua! Andamos armados em boa gente, quando não ajudamos quem cá está?! Somos hipócritas. Não queremos muçulmanos. Esses vêm para cá por bombas! Com os refugiados vêm os maus da fita. Não queremos saber”. Queremos saber. Temos medo. Apontamos o dedo porque nem sabemos o que queremos ou porque sabemos que não queremos perder a paz. De espírito. Perder a normalidade. Perder os dias pacatos de um país que gasta o dinheiro a resgatar bancos  e onde não se investe na educação. Onde é normal ficar sem música nas escolas… Sem
médicos nas aldeias, sem apoio à terceira idade. País onde se abandonam tanto cães, no verão, como velhos nos hospitais. País onde se trabalha mais do que se vive para os filhos, país onde poucos se levantam para defender o próximo porque o emprego é seguro e precisamos dele. Seremos pouco solidários? Pouco corajosos? Pouco interventivos? Perdemos a espinha dorsal ou simplesmente adormecemos?
A silly season acabou. A terrível história da criança de 3 anos que manchou o Mediterrâneo acordou a Europa para uma objectiva notícia: somos todos culpados.
Somos nós que andamos à deriva, numa onda que não tem volta.  Nós, pessoas. Do mundo. Que nos perdemos em cores, em bandeiras. Faz-nos falta sonhar mais e olhar para os outros.
Aqui me fixei nos últimos dias. Enquanto olho para elas penso que perdi os últimos anos. Enganei-me. Iludi-me. Foi mais fácil esquecer o mundo e concentrar-me no futuro delas. Pensava eu. Na música que o Estado se esquece de pagar. Nos bons colégios. Na educação.
Perdi-me. Aqui. Quando deixei de olhar para o mundo e me esqueci que, sem mundo, elas crescem sozinhas. Que sem ideais, sem exemplos,  elas crescem iguais a um país de católicos onde se vai à missa e se esquece do resto.
Foi o meu marido que me acordou desta cegueira. Desta surdez. Bastou uma frase:
“Por que não acolhemos uma família de refugiados sírios?”
Olhei para ele sem saber o que dizer. Na verdade, sempre fui eu a justiceira, a audaz, a que atravessa o mundo, para fazer perguntas. Sempre fui eu a que mais quis mostrar que a vida não é apenas esta sorte. Que é preciso ajudar, apoiar, dar de nós. Fazer a diferença.
Estamos em mudança de vida. Sem certezas. Sem empregos certos. Sem dinheiro certo. Com a vida, aos 40 anos, por reconstruir. Estamos a re-desenhar. A re-escrever. A criar novos projectos. A tentar ser o exemplo dos nossos filhos. E estávamos a esquecer-nos de, tão simplesmente, olhar para o mundo.

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