REFUGIADOS EM NÓS por Bárbara Alves da Costa

1198

Ela adormece ao meu lado. Tem três anos. Enquanto bebe o biberão, sorri e observa que estou a escrever. “ALICE, dorme! A mãe está a tentar trabalhar. Aqui mesmo ao lado.  A mãe precisa de escrever sobre outros meninos. Como tu. Descansa, princesa da mãe”.

Ela vira-se para o outro lado e fecha os olhos. Em Paz. “Que bom ter paz”. Penso.
Olhos de um azul hipnotizante, toda ela cheira a mar, a liberdade. Cheira a pés descalços e a uma vida cheia de histórias. Não tem um metro mas tem a altura de uma menina grande, mulher que se adivinha de garra. Já se percebe que fará a diferença – alguma coisa ando a fazer bem – sorrio.
Loira, branca, que mais parece filha de imigrantes, de outro canto do mundo… mas não é. É minha. Esta e outra.  De dez anos. Igualmente loira. Igualmente  livre. De preconceitos. Respiram vida. Felizes. Respiram mundo. Poucas vezes se calam mas hoje foi o dia.  Hoje calaram-se ao pequeno-almoço. Foi assim que chegámos a este ponto. A mãe, morena, eu.  Aqui. À cama. A este texto.

A ALICE já dorme, entretanto. Passaram apenas estas linhas mas respirar paz tem o condão de uma varinha de fadas. Faz milagres. A Maria do Mar espera-me na sala para ver mais sobre o que se passa no mundo. Meninos da Síria, tal como ela. Estão em apuros.
Tem sido a conversa dos últimos dias. Assim começámos o dia, ao pequeno-almoço. A ver meninos, como elas, a fugir da guerra. Meninos que tinham escolas. Colégios. Falam inglês. Uns têm smartphones. Computadores. Como ela. A mais velha. O que os separa? Por que espera o mundo? O que responder, como mãe, às nossas crianças? O que contar? O que explicar? Por que razão uma mulher, que se diz repórter, lhes passa rasteiras? Por que têm de fugir? Por que gritam estas crianças? Precisam de paz.
Pára-me o pensamento. Nos últimos dias, demoro-me mais no olhar. Enquanto penteio uma, observo a outra a brincar. Consigo ouvir bombas e gritos. Quem me dera não pensar. Foram 16 anos na SIC. Como repórter. Foram viagens a África onde os meninos me abraçavam, sem largar, para embarcar comigo para Lisboa. Foram crianças que tentei salvar da morte certa. Corri. Muito. Bati a muitas portas. Fui muito feliz.  Chorei. Mais. E voltei a sorrir. Entretanto fui mãe. Mais mãe. Olhei mais para elas do que para o mundo. Viajei muito. Com Elas. Sem elas.

O tempo passou. 10 anos passaram. E aqui estou. Em pausa. Lembrei-me do Domingos. Da Guiné. Que veio para Portugal para se salvar. Da morte. Fez anos esta semana. Foi a primeira vez que me mobilizei para mudar o mundo. Tinha ele 12 anos, na altura. Ia morrer naquele hospital. Da Guiné Bissau. Descansei quando o vi, deitado numa cama em Santa Maria.

O Domingos foi salvo. Tem hoje 22 anos. Vive em Portugal. Cresceu. Mexe em computadores, como ninguém. Imigrou. Chegou sem nada e deu-nos tudo. Nunca mais deixei de o seguir.
E nós e eu, entretanto, mudámo-nos. Este ano. Da cidade para o campo. De Cascais para Grândola.  Para um monte no Alentejo. Pai, mãe, crianças, avó. A vida assim o ditou. Começar de novo. Uma obrigação. Uma necessidade. Numa vida que é uma estrada cheia de surpresas.
Leio agora, tantas certezas nas redes sociais, questiono-me se estas pessoas vivem, de facto, ou se se limitam a abrir a boca, sem se ouvir.
“Temos medo de receber pessoas. Os outros que as recebam! Temos tanta pobreza na rua! Andamos armados em boa gente, quando não ajudamos quem cá está?! Somos hipócritas. Não queremos muçulmanos. Esses vêm para cá por bombas! Com os refugiados vêm os maus da fita. Não queremos saber”. Queremos saber. Temos medo. Apontamos o dedo porque nem sabemos o que queremos ou porque sabemos que não queremos perder a paz. De espírito. Perder a normalidade. Perder os dias pacatos de um país que gasta o dinheiro a resgatar bancos  e onde não se investe na educação. Onde é normal ficar sem música nas escolas… Sem
médicos nas aldeias, sem apoio à terceira idade. País onde se abandonam tanto cães, no verão, como velhos nos hospitais. País onde se trabalha mais do que se vive para os filhos, país onde poucos se levantam para defender o próximo porque o emprego é seguro e precisamos dele. Seremos pouco solidários? Pouco corajosos? Pouco interventivos? Perdemos a espinha dorsal ou simplesmente adormecemos?
A silly season acabou. A terrível história da criança de 3 anos que manchou o Mediterrâneo acordou a Europa para uma objectiva notícia: somos todos culpados.
Somos nós que andamos à deriva, numa onda que não tem volta.  Nós, pessoas. Do mundo. Que nos perdemos em cores, em bandeiras. Faz-nos falta sonhar mais e olhar para os outros.
Aqui me fixei nos últimos dias. Enquanto olho para elas penso que perdi os últimos anos. Enganei-me. Iludi-me. Foi mais fácil esquecer o mundo e concentrar-me no futuro delas. Pensava eu. Na música que o Estado se esquece de pagar. Nos bons colégios. Na educação.
Perdi-me. Aqui. Quando deixei de olhar para o mundo e me esqueci que, sem mundo, elas crescem sozinhas. Que sem ideais, sem exemplos,  elas crescem iguais a um país de católicos onde se vai à missa e se esquece do resto.
Foi o meu marido que me acordou desta cegueira. Desta surdez. Bastou uma frase:
“Por que não acolhemos uma família de refugiados sírios?”
Olhei para ele sem saber o que dizer. Na verdade, sempre fui eu a justiceira, a audaz, a que atravessa o mundo, para fazer perguntas. Sempre fui eu a que mais quis mostrar que a vida não é apenas esta sorte. Que é preciso ajudar, apoiar, dar de nós. Fazer a diferença.
Estamos em mudança de vida. Sem certezas. Sem empregos certos. Sem dinheiro certo. Com a vida, aos 40 anos, por reconstruir. Estamos a re-desenhar. A re-escrever. A criar novos projectos. A tentar ser o exemplo dos nossos filhos. E estávamos a esquecer-nos de, tão simplesmente, olhar para o mundo.

Temos o suficiente. Papel para escrever. Um smartphone. Um tablet. Internet. Eu escrevo. Ele desenha. Temos o mais importante: família, estrutura, amigos, e cérebro. Temos, acima de tudo, obrigação de ensinar aos nossos filhos que, se um dia precisarem de ajuda, alguém, como nós, há-de fazer a diferença.
Enviei hoje o email a oferecer-nos como família de acolhimento.
Temos pouco para dar. Apenas a certeza que podemos ser o apoio e o abrigo de alguém, como nós. Com crianças.
Terminei de escrever. Desci a escada e tudo dorme. Sorrio. A vida pode ser assim mesmo. Recomeçar. Bastou uma frase.  É um caminho. E amanhã cá estaremos. Para mais notícias ao pequeno-almoço.