SEXO AOS TREZE

1944

No outro dia vi uma notícia que falava de um pai que espancou a filha de 13 anos com um fio eléctrico e lhe cortou o cabelo à força porque tinha perdido a virgindade. O juiz que julgou o caso achou que o pai apenas havia exercido o “direito de correcção”.

Foi no Brasil, mas talvez pudesse ter sido aqui.

De facto, acho que treze anos de idade é cedo para iniciar a vida sexual. Não sou exemplo para ninguém, mas nessa altura ainda brincava com bonecas e o mais próximo que tinha de um namorado era o poster gigantesco do Leonardo DiCaprio, que ocupava um lugar de destaque numa das paredes do meu quarto. O que é verdade é que, enquanto pais, pouco mais podemos fazer que educar os nossos filhos sobre este assunto, ensinar-lhes o que “consentimento” significa e explicar-lhes que devem ser responsáveis e praticar sexo seguro. O resto cabe-lhe a eles, porque é impossível (e indesejável) controlar-lhes cada movimento.

Pelo que li, este pai não se preocupou muito em falar com a filha. Não se interessou em saber que ela tinha um relacionamento estável (suponho que tão estável quanto um relacionamento pode ser, aos 13 anos), não quis saber se a filha tomou precauções, se queria falar sobre o assunto ou sequer como se sentia. Não me parece que o maior problema tenha sido o acto sexual em si, aos 13 anos. Arrisco-me até a dizer que, se a menina fosse um menino, provavelmente a reacção do pai seria bastante diferente e eu teria de escolher outro tema para esta crónica. Se calhar dava-lhe umas palmadinhas nas costas porque era um “grande macho” e ficava todo orgulhoso por o filho ser um galã precoce. E esta dualidade de critérios acontece desde a infância. Dizem às meninas para não mostrarem as cuecas a brincar mas mandam-nas de vestido para a escola, local onde é suposto correrem, pularem e darem cambalhotas. Acham piada aos meninos que lhes espreitam por baixo da saia ou que lhes apalpam o rabo porque “este já sabe o que é bom” e dizem muitas vezes “de pequenino se torce o pepino”. Por outro lado, se as meninas demonstram um despertar sexual precoce chamam-lhe “frescas”, adivinham-lhes gravidezes indesejadas, traçam-lhes um fado negro e uma vida de promiscuidade infeliz.

Lembro-me de evitar passar por certas portas na escola porque sabia que ia ser apalpada. Fazíamos queixa, mas nunca eram tomadas providências para que deixasse de acontecer. Quase todos os intervalos os rapazes se reuniam junto àquelas portas a apalpar as raparigas que por lá passavam. De vez em quando, alguém ia lá dispersá-los, mas voltavam sempre ao mesmo. Um dia, uma amiga minha levou um top com o umbigo à mostra para a escola. Estava calor, era verão e ela não incomodou ninguém. O alarido foi tanto que ela nunca mais se sentiu confortável para o vestir.

Estas duas situações não têm nada a ver uma com a outra. A minha amiga apenas usou uma peça de roupa, não desrespeitou ou invadiu o espaço de ninguém. E, no entanto, foi muito mais penalizada do que aqueles que assediavam sexualmente as raparigas que passavam pelas portas.

Porquê?

Porque “boys will be boys”.

E enquanto esta mentalidade prevalecer haverá sempre raparigas associadas à promiscuidade porque decidiram iniciar a sua vida sexual, rapazes a ser gozados porque não são machos que chegue, pais que acham válido espancar uma miúda só porque fez sexo… e juízes que lhe dão razão.

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