Sobre a publicação d’O Segundo Sexo

377

 

“Contei como este livro nasceu, quase por acaso. Ao querer falar sobre mim, apercebi-me de que, para o fazer, teria primeiro que descrever a condição da mulher em geral; primeiro, considerei os mitos que os homens elaboraram sobre ela em todas as suas cosmogonias, religiões, superstições, ideologias e literatura. Tentei estabelecer alguma ordem num quadro que, a princípio, me parecia totalmente incoerente; o homem colocava-se sempre em primeiro plano, como o Sujeito, e considerava a mulher como um objecto, como o Outro. Esta concepção podia, claro, ser explicada pelas circunstâncias históricas, e Sartre aconselhou-me a fazer também uma análise psicológica. Isto passou-se em Ramatuelle; falámos longamente sobre o assunto e eu hesitei; não tinha pensado envolver-me na escrita de um trabalho tão vasto. Mas também era verdade que o meu estudo dos mitos ficaria algo suspenso, a meio caminho, se as pessoas não conhecessem a realidade que esses mitos ocultavam. Mergulhei então na psicologia e na história. E não me limitei a compilar; até mesmo os cientistas, de ambos os sexos, estão imbuídos de preconceitos que privilegiam o masculino, e por isso tive que escavar e pesquisar abaixo da superfície, em busca da verdade exata. Da minha viagem na História, regressei com várias ideias com as quais não me tinha ainda deparado em lado algum; liguei a história da mulher à história da herança, porque me pareceu ser esta um produto de evolução económica do mundo masculino.

Ler artigo completo ...