SOU SÓ TUA TIA, NÃO SOU TUA MÃE

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No dia em que a minha sobrinha M. nasceu eu tinha 13 anos.

Não sabia nada de bebés e não era propriamente apaixonada por criaturas enrugadas que berravam e podiam ocupar o meu lugar de membro mais novo da família.

Mas foi alguma coisa nos olhos dela e no seu pequeno corpo que mudou o meu entendimento da sua existência.

Foi também alguma coisa na roupa dela, no choro de bebé (sempre compreendi o choro nas pessoas como necessidade de afeição); depois um cheiro que só ela conseguia ter: acho que foi assim que me roubou o coração.

Dei-lhe biberon, depois papas, depois sopas e lembro-me de tantas vezes em que a fui buscar ao colégio porque os pais iam chegar tarde e não podiam.

Lembro-me dos 6 meses que ficámos a viver com ela.

Lembro-me de um dia a ver cheia de sangue na cara depois de uma operação aos adenoides e achar que ela ia morrer porque não percebia nada de pós-operatórios nem de cirurgias.

(Sim M. , já me deste uns sustos de morte, como sabes)

Lembro-me particularmente de um dia em que, com 18 ou 19 anos, a fui buscar ao colégio sem chapéu-de-chuva. Na maior das cargas de água o meu instinto natural foi tirar o meu casaco para a tapar e trazer.

Quando cheguei a casa, eu era uma pinta molhada, e ela era o que todas as crianças deviam ser no mundo: uma menina enrolada e protegida.

Lembro-me quando a minha irmã me pedia para ter conversas difíceis com ela porque talvez me ouvisse. Lembro-me quando fomos ver Buraka Som Sistema e dançámos juntas até chegarmos mortas a casa.

As tias têm um estatuto muito próprio: não sendo mães (porque não pariram), talvez sejam as que de mais se assemelham a uma mãe.

Quando ela era pequena prometi à minha irmã que ficaria com a M. se um dia lhe acontecesse alguma coisa e acho que isso a descansou.

As mães confiam os seus filhos de olhos fechados às suas irmãs, acho.

Ensinei à minha sobrinha que sempre sobrevivemos aos primeiros amores, que devemos respeito a nós próprias e aos outros.

Quis sobretudo que ela tivesse um coração bom, generoso e honesto: e acho que ela o tem.

Tentei ensinar-lhe que nunca podemos desistir do que queremos e que as mulheres são sempre mais fortes do que imaginam.

Tenho a certeza que ela se vai tornar naquilo que nasceu para ser: uma mulher extraordinária.

Prometi-lhe que herdaria toda minha roupa, os meus sapatos, as minhas malas e sobretudo os meus casacos de pele (tão falsos como atraentes para uma jovem de 20 anos) SE ela me for visitar ao lar e me levar bolo de brigadeiro (ela jura a pés juntos que o fará).

Em breve a nossa M. fará a sua primeira viagem em trabalho.

Vai apanhar o avião sozinha com a sua bagagem e voar daqui para fora por uns tempos.

Vou ao aeroporto dizer-lhe adeus e desejar-lhe sorte.

Mas só sorte, porque tudo o resto ela já tem.