TENHO UMA RELAÇÃO DISFUNCIONAL COM DEUS por Marine Antunes

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Fingindo que já estou na consulta (a sério, Deus, Tu sabes que precisamos disto), começo por confessar que gosto Dele desde que me conheço. Começou com um fraquinho, uma paixoneta de criança, uma curiosidade imposta pela catequese, porque tanto me falaram Dele que acabei por desenvolver um amor platónico, quase sem saber nada a seu respeito. Fui crescendo e esse amor foi evoluindo e recuando, com as dúvidas óbvias que qualquer amor acarreta. Mas depois libertei-o de tabus, de regras, de preconceito, da própria religião e comecei a sentir e a gostar de Deus individualmente, de forma única, verdadeira. Sem mais nada. Depois de assumir esse amor e de conseguir dizê-lo em voz alta (não é fácil, somos, como todos os casais polémicos, vítimas de preconceito) passei a cobrar-lhe coisas. E foi aí que a nossa relação descambou. Passei a duvidar da sua presença, na doença do meu namorado, na morte dos meus amigos, nas minhas dores. Passei a querer que me fizesse sempre feliz, passei a culpabilizá-lo pelas desgraças do Mundo, pela violência descabida, pela desgraça alheia. Virei-lhe as costas. Fiz-lhe as malas e, “Adeusinho, Deus, outra maluca e ingénua que te ature!!”, e fiquei pior. Quando o pus fora de casa senti-me sem esperança e percebi que aquele que mais ataquei e desprezei era quem mais falta me fazia. E voltei a pedir que voltasse. E andamos nisto, às voltas, no “casa e descasa”, no “crê e não crê”.

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