TENHO UMA RELAÇÃO DISFUNCIONAL COM DEUS por Marine Antunes

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Discutimos mas acabamos sempre por voltar.

Acho que nos deveríamos sentar naquelas cadeiras desconfortáveis, que estão dentro dos consultórios intimidantes, e confessar tudo ao terapeuta que se disponibilizar a ajudar-nos. Ah, quanto ao “nós”… estava a referir-me a mim e a Deus, claro.

Depois de sentadinhos e envergonhados, confessaríamos a nossa disfuncionalidade. Ok, ele faria muito melhor figura porque tenho a certeza que a maluca, ali, seria eu. Tenho plena noção de que sou eu o problema da nossa relação, que quem a desequilibra, que quem duvida, que quem grita, que quem põe em causa e o manda, para fora da sua vida, sou eu. Como sabem, Ele manifesta-se de outras formas, que não por palavras, o que piora tudo para o meu lado, que quando enervada, manifesto-me através de palavrões. Em minha defesa, nunca achei esta relação justa ou equilibrada. Ele, o Todo Poderoso e eu, a eterna dependente. Isto vai a algum lado assim?

Fingindo que já estou na consulta (a sério, Deus, Tu sabes que precisamos disto), começo por confessar que gosto Dele desde que me conheço. Começou com um fraquinho, uma paixoneta de criança, uma curiosidade imposta pela catequese, porque tanto me falaram Dele que acabei por desenvolver um amor platónico, quase sem saber nada a seu respeito. Fui crescendo e esse amor foi evoluindo e recuando, com as dúvidas óbvias que qualquer amor acarreta. Mas depois libertei-o de tabus, de regras, de preconceito, da própria religião e comecei a sentir e a gostar de Deus individualmente, de forma única, verdadeira. Sem mais nada. Depois de assumir esse amor e de conseguir dizê-lo em voz alta (não é fácil, somos, como todos os casais polémicos, vítimas de preconceito) passei a cobrar-lhe coisas. E foi aí que a nossa relação descambou. Passei a duvidar da sua presença, na doença do meu namorado, na morte dos meus amigos, nas minhas dores. Passei a querer que me fizesse sempre feliz, passei a culpabilizá-lo pelas desgraças do Mundo, pela violência descabida, pela desgraça alheia. Virei-lhe as costas. Fiz-lhe as malas e, “Adeusinho, Deus, outra maluca e ingénua que te ature!!”, e fiquei pior. Quando o pus fora de casa senti-me sem esperança e percebi que aquele que mais ataquei e desprezei era quem mais falta me fazia. E voltei a pedir que voltasse. E andamos nisto, às voltas, no “casa e descasa”, no “crê e não crê”.

Deus volta sempre. Ele sabe que o amo mas que não o compreendo. Não, ainda não o compreendo mas, pelo menos, já não estou sempre a cobrar. Não o acho responsável por nada. Peço-lhe milagres, mas nem sei se ele os deva realizar. Acho que enquanto ser humano não terei nunca a capacidade de entender (a nossa cabeça não tem inteligência para tanto) mas acho que posso ter capacidade de sentir. Posso não saber explicar, podem não existir palavras, mas posso experienciar. E isso tenho feito. Percebi também, com Ele, que infelizmente não conseguimos compreender a felicidade, a gratidão e o amor, sem tocarmos no sofrimento. Que um não existe sem o outro e que tudo, absolutamente tudo, é uma escolha nossa.

Senhor Doutor acha que há esperança para nós?

Sei que a nossa relação é conflituosa e longe de ser perfeita. Mas apesar da nossa instabilidade, das dúvidas, dos nomes que lhe chamo, de ficar alguns dias amuada, sem lhe falar, sem rezar, sem acreditar, sou sempre mais completa com Ele. Quando o meu Careca Power piora, a minha relação com Deus azeda mas, finalmente, nestes últimos tempos, tenho conseguido encontrar uma paz de espírito inexplicável, mesmo no caos das nossas vidas e aí sei que é dedinho do meu Deus. Não sei o que Ele quer de mim, ainda estou a tentar descobrir e sei que a verdade, senhor Doutor, é que tenho uma relação disfuncional com Deus – mas apesar de discutirmos, acabamos sempre por voltar.