
Testemunho de quem foi privada de comemorar o 25 de Abril
(o primeiro deles, em 1974)
No 24 de Abril ensinaram-me a dizer «o papá está na tropa». E eu gostava de ir à «tropa». Porque havia uns bichinhos nos corredores com os quais me entretinha e o meu pai estava dentro de um aquário. Ali todos os pais viviam dentro de aquários. E eu dizia-lhe para partir os vidros, parecia-me fácil. E ele ria-se muito.
No 24 de Abril passava imenso tempo com os meus avós. E eles pediam-me para cantar os Filhos da Madrugada (a primeira canção que aprendi) mais baixinho nos restaurantes.
No 24 de Abril apareciam homens lá em casa, e a minha mãe corria a esconder livros e discos na banheira. E gritava muito de cada vez que eles me tocavam ou me queriam pegar ao colo. E a minha avó, com medo que também levassem a minha mãe, ajudava-os a arrumar em sacos os livros e discos que nos roubavam.
No 24 de Abril, estava sempre a mudar de casa, e o meu pai morava num castelo maravilhoso cercado pelo mar em Peniche e nós numa casinha de pescadores. E eu dizia-lhe «papá parte os vidros». E lá fora havia mulheres descalças sentadas na areia a desenlear redes.
A minha mãe e a minha avó choravam, às vezes, eu achava normal que os pais estivessem atrás dos vidros. Sempre o tinha conhecido assim, atrás de uns vidros de uma prisão. Tal como achava normal que as mulheres descalças lá fora nunca parassem de desenlear redes.
No 24 de Abril, eu tinha esta mania de fugir, de cada vez que encontrava um espaço aberto pela frente. E a minha avó atrás, muito alarmada, agarrada à minha irmã bebé, chamava Ó Ana, ó Ana, com medo que eu desaparecesse. E eu não sentia medo de desaparecer, fugia e pronto.
Nesse dia foi o meu pai que me encontrou, no aeroporto de Estocolmo. Já não tinha vidros à frente, e usava um gorro enorme na cabeça por causa da neve. Eu olhei para ele, tão alto, sempre o tinha visto sentado. Não era o meu pai mas era o meu pai.


