NOIVAS CRIANÇAS por Susana André

1500

Tehani vive no Iémen. Tinha 6 anos quando a família a obrigou a casar com um homem de 25. “Chorei durante muitos dias”, conta a menina de vestido cor-de-rosa. “Ele agarrou-me e tapou-me a boca, eu não conseguia respirar. Depois abusou de mim”. Tehani tem agora 8 anos e ainda gosta de brincar com bonecas. Deixa-se fotografar no exterior da sua casa, em Hajjah, com a ex-colega de escola, Ghada, também ela uma noiva criança. São duas das muitas meninas cujas histórias tristes se denunciam na exposição internacional “Too Young to Wed /Novas Demais para Casar”, uma parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a População e a Agência Photo VII. As fotografias têm corrido mundo e passaram por Lisboa este Outono.

Uma em cada três meninas casa antes dos 18 anos. Muitas noivas são tão pequenas que levam os brinquedos para a cerimónia de casamento.

Todos os dias, 39 mil meninas em idade de brincar e ir à escola são obrigadas a contrair matrimónio com homens mais velhos. Por ano, a prática do casamento infantil coloca em situações de abuso e violência 14 milhões de meninas.

Bibi Aisha tem 17 anos e vive em Kabul, no Afeganistão. Traz no rosto as marcas da brutalidade do marido e do sogro, gente próxima dos talibã. Um dia levaram-na para as montanhas e Bibi pensou que a iam matar. Cortaram-lhe o nariz e as orelhas.

Mary tem 14 anos e é sudanesa. Casou aos 10. Quando tentou fugir do marido, foi espancada e ameaçada com um machado que acabou por lhe cortar um braço.

Encaradas como propriedade das famílias, as noivas crianças são sujeitas a todo o tipo de atrocidades. Não têm direitos, apenas deveres. Sobretudo o de servir o marido.

image2

A prática do casamento infantil é comum em várias partes do mundo, principalmente no Sul da Ásia e em várias zonas de África – mais de 50 países onde as raparigas são vistas como um fardo para a família e representam uma forma de minimizar a pobreza. A prática não é exclusiva de nenhuma religião, sociedade ou etnia e assenta em tradições culturais antigas, indiferentes às proibições legais. O Níger tem as taxas mais elevadas – 75% das raparigas são forçadas a casar antes dos 18 anos.

As crianças mais afectadas são as mais pobres; moram em zonas rurais e têm pouca ou nenhuma educação. Na maioria dos casos os matrimónios forçados afastam as meninas da escola, perpetuando o ciclo de pobreza e comprometendo o desenvolvimento físico e intelectual das crianças.​

Debitu nasceu na etiópia há 14 anos. Casou com 12 e está grávida de 7 meses. Conta que tem medo de morrer durante o parto. Sente-se sozinha. Chora todos os dias e nunca teve ninguém que lhe limpasse as lágrimas.

90% dos casos de gravidez na adolescência acontecem dentro do casamento. Quanto mais jovens são as mães, maior é o risco de morte materna e de lesões devido à actividade sexual precoce e à gravidez.

O Fundo das Nações Unidas para a População prevê que, se a tendência se mantiver, até ao final da década os casamentos forçados terão destruído a vida de cem milhões de crianças.

A única boa notícia é que os números estão a baixar em alguns países, graças às organizações de direitos humanos e à pressão internacional.

A má notícia é que, no cenário mais optimista, será preciso castigar pelo menos mais uma geração até que o mundo se consiga livrar desta prática medieval.

Até lá, todos os dias, 39 mil meninas em idade de brincar e ir à escola vão continuar a ser sacrificadas.

Ler artigo completo ...

1
2
Partilhar
Artigo anteriorCOZINHA POPULAR DA MOURARIA
Próximo artigoANA VIDAL
Capazes é uma Associação Feminista que tem como objectivo promover a igualdade de género.