UMA MULHER DAS ARÁBIAS por Cristina Borges de Carvalho

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Nunca se deixa verdadeiramente Portugal! É um país único com um “não sei o quê”, que se nos entranha e nunca mais sai.

Mas trabalhar além fronteiras sempre foi um sonho.

Estudei sempre fora.

Tive uma vida de “bandoleira”. Nasci em Moçambique, uma das minhas grandes paixões e vim para Portugal aos sete anos. Apanhei o avião em Maputo de mão dada com minha avó Alice. Para trás ficava a minha primeira casa, a minha mãe, pai, irmão…e todo o meu mundo! Foi a primeira e talvez a mais dolorosa separação que vivi. Durante muitas noites, acordei a chorar pela minha mãe, de quem estive separada mais de três anos. Ela era professora. Quando regressei, e porque nesses tempos eles calcorreavam o País, rumei de Norte a Sul. Do Porto fui para Moledo do Minho, onde fiz a quarta classe e o 1º ano em Caminha.

Dai, desci até à Comporta onde não havia Ciclo Preparatório e por isso estudei em Alcácer do Sal. Acabei por assentar arrais em Lisboa.

Anos mais tarde fui bolseira do Lyons durante 3 anos consecutivos na Alemanha participando num programa de férias de Verão para jovens de toda a Europa: Lyons Yungen Forum e obviamente não perdi a oportunidade do Programa Erasmus, em Portsmouth, Inglaterra.

A minha vida profissional permitiu-me viajar SEMPE muito. O meu recorde de viagens foi justamente na época em que trabalhei na Renault, em Boulogne Billancourt, entre 2000 e 2005, pelas funções que exercia. Chegava a sair ao domingo, no avião das 18:50, com um grupo de jornalistas, para a Córsega, regressava na terça e voltava a viajar na quarta para uma reunião de alinhamento em Paris. Por vezes, vinha no mesmo dia. Nunca me custou este ritmo e quem vive comigo sabe que sou assim.

Tenho a fortuna de adorar viajar, um pouco pelos quatro cantos do planeta. Falo seis idiomas fluentemente, que adoro praticar nestas viagens. No meu coração trago o templo de Angkhor, uma das visões mais bonitas que já tive, o passeio pelo lago San Rafael na Patagónia chilena, o bulício de cidades como Nova Iorque, Hong Kong, ou São Paulo, a simpatia de locais como Dubrovnik, Dublin, Budapeste, o salero do Rio e de Buenos Aires, a imponência de São Petersburgo e de Moscovo, várias cidades da China e o templo de Kandi no Sri Lanka onde por pouco não me tornei de vez Budista.

Mas para mim, não há lugar nenhum que supere Moçambique. Não tenho palavras para vos descrever o que senti quando regressei, vinte anos depois “à minha terra”. Descia as escadas do avião, olhando lentamente em volta, a sentir o cheiro e a cor densa, acobreada daquela terra, com medo de perder algum bocadinho. As lágrimas caiam-me, sem que eu conseguisse pará-las. “Sim, esta é a minha terra” era tudo o que consegui balbuciar. Pouco depois de aterrar, estava sôfrega, queria reaver tudo o que era meu, o meu pai e irmão…tanto que eu os beijei e abracei e voltei a beijar e a abraçar… mal sabendo que era a ultima vez que os via… porque as viagens também tem disto!

Fui a todos os locais onde brinquei na meninice, mergulhei profundamente naquelas águas de um azul tão puro como o próprio povo moçambicano, provei tudo a que tinha direito …e ai que bom que foi relembrar o gosto único da fruta, do caju, do marisco e dos “sorvetes”.

Escolhemos os Emirados Árabes Unidos para “imigrar” por se tratar de um País totalmente seguro …. com  boas escolas internacionais para os filhos…e claro com um lifestyle único. O Dubai é uma sociedade cosmopolita por excelência! O exemplo perfeito de quem soube explorar a magia das diferenças. Um verdadeiro melting pot de muitas culturas e religiões. Adoro esta diversidade da comida, das pessoas, as praias a perder de vista, os shoppings apinhados e cheios de gente gira e diferente. E é isto que me alimenta e inspira diariamente.

Aqui vibra-se 24/ 7. Tudo acontece a uma velocidade alucinante, com um crescimento urbano incrível e incomparável. Work hard, Play harder é o lema cá em casa. Quando é para trabalhar dá-se tudo e no fim de semana é o descanso dos guerreiros. A praia, os restaurantes as compras, o Fish Market , os Souks. Dubai é a casa longe da minha casa.

Como não podia deixar de ser nesta terra, tudo se passou de uma forma mágica e rápida. Um dia estava a trabalhar no meu computador quando recebo uma mensagem via LinkedIn: se queria ser diretora de marketing  da FTI, nos Emirados Árabes Unidos.  Porque não???

Poucos dias depois estava em Ras Al khaimah no Norte dos EAU. Uma verdadeira aventura. Se tive medo? Claro! Toda eu tremia por dentro, um turbilhão de sentimentos, ansiedade, expectativa, curiosidade… e sobretudo a convicção de estar a um passo de realizar um sonho de menina….

O dia passou a correr, desde a visita à fábrica, a conversa com os meus colegas … Sem almoçar e jantar, já bastante tarde, regresso ao hotel mas com muitas borboletas no estômago, tal era a felicidade e desejo de partilhar tudo com o Nuno, o meu marido.

Quando cheguei a Portugal já tinha uma proposta oficial no meu email.

As condições eram fantásticas e era impensável não aceitar:  isenção de impostos, uma casa  num condomínio que mais parecia um resort de férias a uns ridículos 5 minutos do trabalho.

Mas nem tudo foi “cor-de-rosa”. Pelo contrário….. A realidade laboral era totalmente diferente. Vim coordenar um departamento de marketing e gestão de produto composto por uma rapariga do País de Gales, um Argelino, vários indianos e Bangladesh, Filipinas e paquistaneses. Entre eles a maneira e ritmo de trabalho era totalmente diferente, mas como cá existe uma cultura empresarial de imenso respeito pelo managers e talvez pela minha maneira de ser, as diferenças rapidamente foram ultrapassadas e ainda hoje falo com alguns deles por Skype. Fizemos em conjunto um trabalho de transformação da marca absolutamente fantástico, criamos novos produtos com imagem e identidade própria, um novo site de raiz, tudo concebido por uma agência portuguesa e reforçamos a presença da marca agora totalmente uniforme e coerente. Com muito orgulho, vi-os crescer, ficarem mais maduros e confiantes. Nunca os esquecerei.

Tenho a sorte de ter passado por empresas conceituadas onde aprendi imenso. Tento partilhar esse know how, mas nunca, nunca, deixo de aprender porque em cada novo lugar há sempre coisas novas que me enriquecem e completam.

Não foi fácil ter ficado sozinha de Abril a Agosto. Estava muito habituada a estar em família e a chamada diária por Skype com o meu filho sabia sempre a pouco….O Diniz é um grande menino. Dorido, ele aprendeu a só chorar depois de desligar, vim a saber mais tarde… a mim acontecia-me o mesmo, claro… Para me ocupar, decorei a casa, devorei varias temporadas do CSI, Friends, eu sei lá e aproveitei para por a leitura em dia.

Fiz o meu primeiro Ramadão num jejum quase total. Apenas cortado pelos meus grandes amigos e colegas, Loraine e Andy, que me desafiavam frequentemente, tentando que eu nunca me sentisse só.

Vivia num lugar de sonho, mas as saudades do meu filho quase me mataram.  Não nego que muitas vezes me interroguei (e ainda hoje o faço) se dei o passo certo. Esses pensamentos não duram muito felizmente porque sempre me arrependi pelo que não fiz e nunca  pelo que faço.

Aqui é tudo muito rápido, após um longo e cerrado “namoro,” mudei de empresa, passado um ano. Por várias razões: as condições financeiras eram melhores, mas mais importante era poder conhecer a realidade de toda a região do Golfo. Foi muito interessante, embora desgastante porque me obrigou  a permanecer no kuwait com frequência, visitar os vários escritórios e acompanhar os muitos eventos por toda a região.

Quando mudei para o Dubai sabia que ia perder uma certa paz típica de uma cidade que é sobretudo um destino de férias. Mas queria outro tipo de escola para o Diniz e precisava de estar perto do aeroporto devido as constantes deslocações e era o lugar ideal para o Nuno realizar o seu sonho de fotógrafo que acumula com a atividade de professor de Educação Física. No Dubai somos o que sonhamos. Este era também um sonho dele. Em Lisboa, quadro superior do Barclays Bank não arranjou nada ao mesmo nível aqui… então, porque não fazer o que nunca tivemos coragem antes? Sem o olhar crítico de alguma sociedade portuguesa? Nunca o vi tão feliz e realizado depois de um duro ano a tentar encontrar algum trabalho e ter as portas sempre fechadas.

Aqui não é diferente dos outros lados. Ter uma mão ”amiga “ que coloca o nosso cv perdido no meio da pilha , no topo, é uma grande ajuda e nós isso nunca tivemos.

Há, no entanto, muitas diferenças culturais até porque  existe uma centenas de nacionalidades presentes neste pais… O episódio mais giro foi logo no início quando a secretária de administração me chamou à parte e me fez um périplo pelas cores que eu deveria usar (que vão do branco ao preto) e também a importância de acessórios como as casaquinhas, echarpes e a beleza da roupa sem decote (risos). O que eu me rio ainda hoje ….

De resto, sendo senhora, espero sempre que o meu interlocutor me estenda a mão, caso contrario não o faço, evito olhar-lhes nos olhos, entre outros cuidados….

Apesar de se ter tornado numa das cidades mais modernas do mundo a população local mantém-se muito fiel às suas tradições e cultura. O primeiro presidente marcou de certa forma esta tendência ao dizer que este é um pais que “não sabe o seu passado, não tem presente, nem futuro”. 

A primeira coisa que nos chama a atenção é a maneira impecável como se vestem, a kandoura dos homens é imaculadamente branca, sem um único vinco, a barba aparadíssima, os botões de punho de marca também não podem  faltar, um perfume de marca anuncia sempre a sua passagem…. e adoram variar as Ghuttras,  os lenços que cuidadosamente enrolam em torno da cabeça.

Já as locais vestem as abayas, os vestidos pretos que escondem uma sumptuosidade e riqueza inimagináveis….ninguém diria que a Victoria Secret é um best seller por aqui…A Sheyla é o lenço que lhes protege os cabelos, sinal de respeito. Existem designers para estas pecas e posso dizer que é nesta região que tenho visto os vestidos mais lindos e ornamentados.

São pessoas muito seguras de si próprias, tem um brio especial e enorme orgulho na sua nação. São extremamente afáveis e em varias situações burocráticas foram sempre muito prestáveis. Só tenho a dizer bem.

Muitas vezes perguntam-me  que me faz feliz:

A maior  parte das coisas são muito simples…Ir ao mercado de manha cedo e ter a alegria de encontrar ovas para cozer acompanhadas de batata e legumes cozidos regadas com azeite Português que faço questão de ter sempre em casa…lo

As notas do meu filho enchem-me de orgulho e alegria: 100% a matemática, um dos melhores alunos da escola…!!!! Imagino que não terá sido nada fácil para ele passar a aprender tudo em inglês…Graças a Deus tinha uma base extraordinária dada pelo colégio Alemão, a Fonte Nova e os Salesianos de Lisboa. O nosso ensino é de facto fora de série. Adoro ir ver os jogos de futebol dele, é um excelente desportista.

Faz me feliz falar com a minha mãe e ver o sorriso dela… enche me o coração….

Adoro receber os meus amigos que me vem visitar, tento ser a melhor guia possível e tanto mostro a modernidade como o porto e os souks de Deira.

Uma das coisas que a distância traz é sabermos cuidar melhor das boas amizades… crescemos muito por dentro e aprendemos que a maior parte de quem nos rodeava era afinal apenas gente conhecida….mas também cuidamos quem esta sempre ao nosso lado, embora longe.

Perguntam-me também o que mudou. Tudo e nada!

Tem sido uma vida muito intensa…com muitas coisas boas mas também com inexplicáveis durezas e percalços….” isto” torna-nos mais humildes e  apreciar cada dia que passa e a ficar feliz apenas por isso…Aqui , quando se tem problemas não se tem amigos nem família…estamos SÓS e só agora sei o que isso é…

Aprendemos a apreciar a solidão. Adoro cada vez mais o deserto. Fazer passeios sem rumo, mas em (relativa) segurança é fantástico e libertador e o passeio de helicóptero é divino! Hoje vivo na marina ao lado do Sky Die e andamos a arranjar coragem para saltar….

Aqui dizemos “Life’s a beach” (“A vida é uma praia”). Nos fins-de-semana vou até a praia ou piscina de dois ou três hotéis. ADORO as praias de Al Mamzar, Riva Beach Club Rixos The Palm Dubai, Talise, Jumeirah e Fujeirah. Gosto das zonas de  Souk Medina, Global Village, Heritage Village; de ir ao Dubai Mall e assistir aos shows aquáticos; da mesquita Diwan, Burj Nahr; passear pelos souks (Ouro e especiarias) em Deira, zona portuaria que recebe os creeks (barcos tradicionais). Em Abu Dhabi, é imperdível a Corniche, Ferrari World, a marina e a mesquita.

Os hotéis são a nossa salvação para fazer o gosto a um bom copo de vinho tinto, durante o tradicional o brunch das sextas-feiras.

Para contrabalançar este bulício, tratamos de fazer um piquenique para ocupar o fim de semana: tenho uma cesta com o kit completo: a toalha, os pratos, os talheres, as flûtes. Também gostamos imenso de ir a Omã, porque é tudo mais genuíno e típico.

Hoje viajo mais em família. Livros e revistas sobre Goa, Singapura, Malásia, Nova Zelândia e Bali amontoam-se cheios de notas escritas pelo três. Queremos muito visitar estes “lados”. A mim, pessoalmente, falta-me fazer um retiro espiritual e participar numa missão humanitária. Ambos teriam de ser períodos longos para serem vividos em plenitude e até agora não consegui encontrar esse “momento”. A viagem ao Sri Lanka, e a experiencia  em Kandi ensinou-me muito  sobre o  espírito do Budismo, a paz , bondade  e sobretudo a serenidade de saber aceitar o que a vida nos dá.

Sim, tenho imensas saudades de Portugal. Aliás, sinto saudades de tudo e de nada. Sinto saudades de pessoas que não imaginam a falta que me fazem. Além da família, dos amigos, sinto a falta dos petiscos, da luz de Lisboa, das festas populares, dos festivais de Verão, da bica, da imperial, do bom vinho tinto. Tenho uma casa que adoro à minha espera em Colares, a minha mãe, os meus sogros… mas se imaginassem a quantidade de vezes que me pergunto se alguma vez regressarei… como ser? Tremo quando penso nisso. Não imagino o que vou sentir  quando regressar depois deste tempo todo. Sobretudo rever a minha mãe, que já não vejo há dois anos e o Skype não cura tudo. Este foi o preço mais caro que paguei…Não me canso de dizer o quanto a admiro e lhe agradeço o amor incondicional que me dedicou toda a vida, tudo o que abdicou por mim e o exemplo que foi e ainda hoje é… Para ela, o mais importante eram os meus estudos. Achava que “ter mundo” era um complemento vital da educação. Foi ela que me abriu a gaiola e deixou voar. Se não fosse esta sua teimosia, provavelmente não estaria aqui.

Por cá, nestas minhas escolhas, bom senso é a palavra de ordem, aliás como em tudo na vida, juntando-lhe “uma pequena/grande” dose de sorte e outra pitada de loucura.

Comecei esta aventura com um ‘sim’ balbuciante e num ápice se transformou na minha vida.

Tudo tem os seus aspectos positivos e negativos…e acreditem, não tem sido nada fácil….

O que conseguimos é tirado a ferros, é uma vida cheia de altos e baixos, que a dureza do sofrimento, as muitas lágrimas, mas por outro lado, o carinho do Diniz quando diz que sou a melhor mãe do mundo, os longos silêncios que os meus olhos trocam com o Nuno, as palavras encorajadoras dos meus sogros e de alguns amigos, muito poucos, mas os melhores do mundo, enfim, tudo isto me tem ensinado a ultrapassar os obstáculos cada vez com mais serenidade.

Aprendi igualmente a valorizar apenas o que é importante, como o facto de estar viva, ter saúde e uma família maravilhosa. Eles são o meu pilar e facilitam muito toda esta aventura.

Sabem que mais tarde ou mais cedo terei um novo desafio e sempre que isso acontece, o meu marido só comenta: “Mas ainda aqui estás?” e o meu filho diz alto e bom som: “Here she goes again”.

A vida pode ser tão boa quando temos coragem de a viver com verdade! Mashallah!

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