VIVA O NOBEL DA LITERATURA

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Foi intenção do senhor Nobel, consignada em testamento em 1895, premiar anualmente “the person who shall have produced in the field of literature the most outstanding work in an ideal direction”. E, em cumprimento da sua vontade, há Prémio Nobel da Literatura desde 1901, não tendo sido atribuído, por razões que se percebem de imediato, apenas em 1914, 1918, 1935 e de 1940 a 1943. Receberam-no autores extraordinários como Kipling, Tagore, Yeats ou Thomas Mann, para só referir alguns dos primeiros, e receberam-no autores que talvez não ombreiem com nenhum destes em qualidade no que se refere à obra produzida. Mas a distribuição dos prémios foi generosa, pelo menos em termos de génerosliterários: foram galardoados poetas, dramaturgos, romancistas… e, em 1953, até o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill foi distinguido pelas suas qualidades na narrativa histórica e biográfica, para além da [sua] “brilhante oratória em defesa dos valores humanos.” No ano passado, o prémio foi entregue a Svetlana Alexievich, nascida na Ucrânia de mãe bielorussa. O júri do Nobel “justificou-se” escrevendo que a jornalista pratica um género “de fusão” entre a reportagem e a narrativa ficcional. Nada a apontar. Até este ano, o júri, com maior ou menor acuidade, e deixando sempre para trás tantos nomes de escritores extraordinários que não conhece porque não domina as suas línguas maternas, ou porque não estão suficientemente traduzidos ou porque as traduções lhes não fazem jus, escolheu sempre autores a quem reconheceu qualidades na obra escrita. Na obra literária! E não vale a pena referir que, na História, a Literatura começa por ser uma prática ligada à oralidade… isso é evidente e percebemos porquê. Do mesmo modo que percebemos que a evolução do Homem, e a sua alfabetização generalizada, determinou que as práticas literárias deixassem de estar intimamente ligadas à oralidade, sem que isto alguma vez tenha impedido a valorização da musicalidade das palavras. Parece que 2016 marca uma mudança de rumo. Não por ser Bob Dylan, que também escreve, e que é poeta, mas porque o júri confere este prémio ao criador de canções (música, texto, interpretação) e não ao poeta (texto) –“for having created new poetic expressions within the great American song tradition.” (por ter criador novas expressões poéticas dentro da grande tradição americana de canções) E se estou contra, não é contra o criador Bob Dylan, as suas canções, as letras que escreve para as suas canções, mas é contra o júri. Pelos vistos, o Prémio mudou de rumo… podiam ter-nos prevenido antes. Sem pré-aviso, é natural que todos continuássemos à espera que um criador fosse galardoado pela sua obra literária e não por outra, por melhor que seja.E não me sinto retrógrada nem paralisada no tempo por esperar que um prémio literário seja entregue por razões literárias. Talvez o meu mal, o que me causou tanto incómodo com a atribuição deste prémio, seja o facto de ligar bastante ao significado das palavras. Literatura é Literatura.

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