YOGA – O CAMINHO ATÉ MIM por Bárbara Santos

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Yoga – O caminho até mim

O que fazer quando o tempo parece não parar de correr, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, segundo após segundo, a um ritmo alucinante, em que somos engolidos pelo relógio, pela agenda, pelas tarefas e por tantas coisas que ocupam a nossa cabeça e apertam as nossas emoções, levando o nosso corpo a agir de forma mais ou menos automática?

Esta foi a pergunta que se foi tornando ensurdecedora dentro da minha cabeça há uns anos atrás e que me levou a começar a trilhar um caminho de procura, um caminho de descoberta… o caminho até mim.

Desde muito pequena que sentia que estava a viver uma vida “dessintonizada”, na qual eu tocava uma música fora do compasso do resto do mundo… sentia que não era entendida, como se falasse uma linguagem de difícil compreensão por parte dos que me rodeavam, como se eu comunicasse num tom que os ouvidos humanos não conseguiam captar.

Era assim que eu me sentia muitas vezes, com dúvidas sobre o meu papel neste mundo, sobre o papel do mundo no universo, sobre o significado do tempo e do espaço, sobre o efeito do tempo e do espaço no mundo, sobre o medo e o fascínio do infinito, sobre o meu papel neste tempo e espaço infinitos.

Ao longo de muitos anos, todas estas questões foram ocupando cada vez mais espaço dentro de mim e, ao mesmo tempo, o meu “mundo real”, as rotinas da minha vida foram sobrecarregando o meu corpo de tensão e de cansaço e a minha mente de “pré-ocupações” e stress, oscilando sistematicamente entre o passado e o presente, pensando em coisas que me marcaram negativamente no passado e que poderiam voltar a acontecer-me no futuro. Esses pensamentos repetitivos que nos condicionam a cada instante, já que tendemos a acreditar que o nosso futuro passa por perpetuar as nossas experiências do passado, porque é essa a “realidade” que a nossa mente conhece. E, aparentemente, a mente gosta mais de nos dar algo que conhece, mesmo que isso seja “negativo”, do que arriscar-se a entregar-se ao desconhecido…

Esta “combinação explosiva” de dúvidas existenciais com uma “vida real” sobrecarregada, foi um tsunami que trouxe ao de cima tudo o que me assolava dentro de mim, uma corrente com uma força brutal que arrasta consigo tudo o que se encontra junto à costa marítima. Uma onda gigante, mesmo à frente dos nossos olhos, carregada de memórias, de emoções e de pensamentos que inundam tudo. Como a água de uma barragem que se cansou da sensação de inércia e de acomodação, que quer correr livremente para ver a paisagem das margens ao longo do seu percurso, para percorrer o caminho até ao mar e experienciar o encontro com o oceano.

Esta onda poderosa levou-me a procurar algo que me permitisse encontrar, em primeiro lugar, a mim própria… que me permitisse encontrar um equilíbrio entre as minhas aspirações e os meus anseios, entre os meus pensamentos e as minhas emoções, entre as várias partes da minha vida… entre a minha vida pessoal e a minha vida profissional, entre as várias facetas do meu ser, entre aquilo que sou e o que é esperado de mim, entre o meu interior e o meu exterior… Um comboio que se move numa linha com duas estações opostas, dia e noite, carregado de pessoas e de mercadorias, que entram e saem, que dão vida às carruagens, que enchem o comboio de sons e vozes, de sorrisos e gargalhadas, de cores e texturas, de odores e perfumes…  e que partem, a seu tempo, deixando o comboio vazio a deslocar-se continuamente no tempo, num espaço limitado.

Movida pelo vapor quente e concentrado, desloquei-me para além do espaço daquela linha férrea e decidi-me a experimentar algo de que já tinha ouvido falar… como se fosse um apito familiar que soava numa estação longínqua.

A primeira aula de Yoga tocou-me no meu interior. Aquele apito longínquo ressoou no meu interior como se tocasse dentro de mim. Os minutos daquela hora tiveram mais do que sessenta segundos… O tempo passou fora do relógio e passou mais lento dentro de mim. O meu coração abrandou como se soubesse que não precisava de correr mais à procura de algo. A minha respiração tornou-se mais lenta também… era a ponte entre a minha mente e o meu corpo. Naqueles minutos mais longos consegui resgatar algumas partes de mim… A minha atenção deixava de estar naquilo que me rodeava, no que estava fora de mim… e passei a focar-me em mim, apenas em mim, sentindo as palavras que o meu corpo me queria transmitir, tudo o que estava acumulado… a tensão e o cansaço que eu teimava em não escutar dia após dia, as emoções camufladas que eu tanto “gostava” de esconder, os pensamentos viciados e ensurdecedores que me desgastavam. Naqueles minutos permiti que tudo isso se revelasse e mostrasse como eu estava naquele momento do tempo e no espaço.

E ao mesmo tempo que eu deixava que essa parte de mim viesse ao de cima, eu também deixava que essas sensações seguissem o seu caminho para fora de mim, libertando-as com a minha respiração… Libertando-as em cada alongamento. Cada postura era um encontro comigo, cada respiração era uma oportunidade de renovação. Cada expiração permitia-me libertar o que queria deixar ir e cada inspiração permitia-me resgatar partes de mim perdidas… um ciclo contínuo e infinito… um comboio com infinitas paragens dentro de mim, que agora se deslocava com a energia de um vapor matizado pelas várias tonalidades do arco-íris, com a essência da água de um rio que conhece todo o seu percurso, desde a nascente na montanha verde e poderosa, aos sulcos junto dos campos floridos e coloridos, que conhece os seixos e os obstáculos do seu caminho e que continua a correr livremente até chegar ao mar e ao grande oceano, onde finalmente se une com tantos outros rios que também percorreram os seus caminhos.