O FENÓMENO BOYHOOD

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Há muito tempo que não se via uma coisa assim, um filme capaz de maravilhar tanto a crítica, como o público em geral.

Eu sou uma das que ficou maravilhada apesar de ter alguma dificuldade em explicar exactamente porquê. É evidente que ver passar à nossa frente momentos de uma vida banal, como a nossa, ao longo de 12 anos; ver os personagens envelhecer, ou melhor, as pessoas daquela família envelhecerem, porque me parece esse o efeito do registo de Linklater, é impossível olharmos para Patricia, Ellar, Lorelei e Ethan e vê-los como personagens de um filme; assistir, em três horas, a uma espécie de cápsula do tempo: Lady Gaga, a guerra no Iraque, a campanha eleitoral por Obama, o Facebook. Tudo isso é bastante fenomenal. Mas acima de tudo Boyhood mostra-nos, como tem sido várias vezes referido, a vida como ela é.

E não é exatamente o tempo a passar que mostra a vida como ela é (apesar de ser essa a essência do filme), é o que não vemos no tempo que passa.

O filme começa quando Mason tem seis anos mas é muito fácil imaginar o que terá acontecido antes. Provavelmente, houve um dia em que a mãe teve de ficar em casa com o filho doente e, para conseguir trabalhar, ligou a televisão para entreter a criança (e, se estivesse em Portugal, via a Ágata a cantar uma canção sobre a Virgem Maria no Natal dos Hospitais). Num daqueles momentos em que riscaram na porta o tamanho dos miúdos, por exemplo, talvez os pais tenham discutido, por um motivo insignificante qualquer.

E depois, também podemos facilmente imaginar o que o filme não nos mostra, ao longo dos 12 anos, como o dia em que Mason caiu da bicicleta, ou aquela vez em que a Samantha se zangou com a fada dos dentes. Também houve as 144 vezes em que terão ido ao supermercado, partindo do princípio que faziam compras mensais. Se calhar houve um ou outro ano em que não fizeram árvore de Natal, mas é pouco provável.

No filme, sempre que vemos os miúdos a divertirem-se estão com o pai, que só os vê de 15 em 15 dias, mas tenho quase a certeza que Olivia terá levado os filhos a um museu, enquanto viveram em Houston, e prometeu nunca mais repetir a graça.

Também me parece que Olivia chorou bastantes mais vezes do que as que vemos e o momento que ela refere como sendo o pior da vida dela (quando Mason sai de casa para ir para a universidade) é bem capaz de ser um exagero. Ao longo daquele tempo todo teve momentos piores do aquele, de certeza, apesar de não me ocorrer nada pior do que chegar àquela mesma conclusão: É só isto, afinal? Eu estava à espera de muito mais da vida!

Não sei se daqui a 12 anos Linklater vai lembrar-se de nos mostrar o que anda Mason a fazer (aposto que vai acabar a trabalhar em cinema) mas, honestamente, isso interessa-me muito pouco. O que andará a mãe dele a fazer, isso sim, interessa-me.

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