SOU FINALMENTE FORTE E LEVE, MUITO LEVE por Ana Nogueira

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Sou a Ana. Tenho 30 anos. Três filhos e um Homem que me ama e que eu amo. Sou livre. E leve.

Podia bem resumir quem sou hoje em dia, nesta simples e curta frase. Podia dizer-te que a minha vida é e sempre foi assim. Mas mentiria.

Mentiria se não te dissesse que o caminho foi longo, pesado, dorido.

Nunca fui magra. Espera, pesei 69kg numa fase da vida em que existia uma refeição de vez em quando e em que o céu estrelado era o meu tecto e o banco de uma estação de comboio o meu lar. Era cinzenta. Não era saudável.

Por isso, nunca fui magra. Lembro-me de me terem sempre dito que tinha peso a mais segundo uma qualquer tabela que um chico-esperto achou por bem considerar como saudável.

Não fui a risota da escola, nem a gorda gozada pela sociedade. Não fui.

Fui a gorda, balofa, baleia, texugo, monstro, horrorosa, feia, deformada, gordurenta e caixa de óculos que aquele a quem eu chamava erradamente “pai” fez questão de gozar, destruir a miúda que um dia seria Mulher com feridas por sarar.

Sempre fui Maria, uma Maria-rapaz que escondia a miúda que já não queria ser bonita. Que não gostava de saias. Que usava cabelo curto como os rapazes.

Que queria jogar à bola e que só descobriu o que era maquilhagem aos 17 anos.

Podia não te contar nada disto e se um dia passasses por mim dirias “tem a mania”, “que convencida”. E serias injusta.

Aquilo que sou hoje é fruto de dor, de luta, da vontade de sair daquela onda de vítima.

Vivi durante anos fechada entre quatros paredes, anulei-me, privei-me de muitos prazeres da vida. Chorei horas a fio sempre que me negava uma saída à praia, um encontro entre amigos. Chorei, e ele com a paciência que lhe é característica, limpava-me as lágrimas.

Estávamos no início do ano de 2010, quis por um ponto final naquela “miúda” que se achava horrível, vazia, cinzenta. Tinha ultrapassado os 130kg.

Quis curar-me. Quis deixar o peso de um passado longe dos meus ombros. Começava assim a longa caminhada da minha vida.

Hipnoterapia. Curei-me. Já não sentia na pele as marcas do cinto daquele homem. Menos 15kg de um passado que me pesava. E não era gordura. Era dor. A dor pesa, sabias? Muito.

Comecei a achar que até tinha uns olhos giros. Procurei na internet Mulheres como eu, XL.

Encontrei um blogue. Participei num dia de fotografia em que Mulheres que não eram modelos se apreciavam. Diverti-me. Achei-me gira.

Estava na hora de cuidar ainda mais de mim.

Assim o fiz, pequenos passos, grandes mudanças.

Sabes, mudança nenhuma acontece num estalar de dedos. Mudança nenhuma acontece sem existirem dias em que os braços só querem baixar e baixam. Mas no dia seguinte erguemo-nos ainda mais fortes porque a palavra desistir desistiu de nos assombrar.

 

Hoje, hoje acho-me gira que dói, não sou convencida. Sou transparente. Acho-me uma pessoa bonita, e saber que consigo partilhar luz faz de mim uma “miúda gira”. Os meus olhos têm alma e já não é cinzenta. Hoje em dia brilha.

Decidi que estava na hora de fazer pelos outros aquilo que um dia fizeram por mim. Decidi criar um blogue. Sobre mim. Sobre ser Mulher. Gira. Gorda. Livre.

Lembro-me que quando via blogues de pessoas gordas aquilo que escreviam não me entrava no coração, achava impossível alguém aceitar ser diferente daquilo a que a sociedade chamava “bonito”. Aquilo que me encantava era a postura delas nas fotos. Altivas. Fortes. Seguras.

Era aquela confiança que me transmitiam que eu invejava. Era aquela altivez que eu sonhava ter um dia.

E os sonhos realizam-se. Foi e é por isso que decidi criar um blogue. Para ser aquela Mulher altiva que quem está nos seus dias cinzentos chamará de “inspiração”.

Quero que olhem e que digam “Quero chegar ali. Quero andar direita, de cabeça erguida. Pisar o chão e mostrar ao mundo o que é ser Mulher”.

Sonho alto, eu sei. Mas saber que posso criar sonhos e saber que alguém se inspira em mim para ser simplesmente forte, isso faz tudo valer a pena.

Podia contar-te tanto, tão mais. Mas sei que nada desta confiança escrita muda o dia-a-dia de quem ainda não se ama. Sei que tudo começa na nossa cabeça e que só podemos ser ajudadas por quem já chegou ao ponto de se amar. Estou e estarei por cá. Assim, transparente, para quem precisar.

Sabes, o tempo não tem pressa. Mas não o quero deixar passar em vão. No dia em que a vida chegar ao fim, não quero chorar pelo que não fiz por ter vergonha de uma sociedade de julgamento. Quero sorrir e gritar ao mundo “Valeu a pena!”. Pensar nisto todos os dias, ajuda-me. É mais fácil assim.

Olha Maria Capaz, deixo-te um abraço. Já te disse que gosto mais de abraços que de beijos? É. Um abraço protege, passa energias, aconchega.

Maria Capaz, hoje eu sou livre. Sou finalmente forte e leve, muito leve.

Maria Capaz, estou VIVA.

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