FLORENCE É POESIA

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Foi mais que música, foi mais que amor, Florence é poesia.
Do início ao fim, desde a primeira nota que não atinge à última palavra que murmura, é dos poemas mais belos a que podemos assistir.
A personagem Florence, brilhantemente interpretada por Meryl Streep, lembra-nos que a vida deve conduzir-se pelos sonhos, por mais que nos doa, por mais que a realidade posta de parte, ou mesmo à toa, nos chegue tarde e nos corroa.
Florence traz-nos a certeza do amor eterno, do de todos os dias e de todas as horas, do amor que cuida e se descuida, do amor colcheia, do amor em dó maior, do amor imenso de entrega e algibeira, um amor tamanho que não nos cabe numa vida inteira.
Florence é mulher e amor à música. St. Clair (Hugh Grant) é esposo e devoção a Florence. Podemos andar de candeias às avessas com tal amor, podemos reconhecer telhados de vidro a tanta devoção, mas não os podemos negar.
Não podemos negar a verdade com que ela encara a música, com que ele lhe mascara o mundo feliz a que repetidamente alude.
Não podemos negar.
Como não podemos negar o amor.
Nem a poesia.
Nem a poesia do olhar assustado dela, do ar confiante dele, da frágil saúde dela ao cuidado que ele tem em deitá-la, do sorriso harmonioso dela ao engenho meticuloso dele, do sonho surreal dela ao caminho que ele faz para o tornar real.
Pode o amor ser tão cheio ao ponto de lhe toldar os ouvidos, pode. Não que ele não saiba, porque sempre o soube, e esse foi o mote de toda a sua vida, mas o amor é sempre a felicidade tangível que damos aos outros.
E ele devia-lhe isso, como devemos todos uns aos outros.
Mais que música, mais que amor, Florence é poesia.
É poesia que nos gargalha em cada falha e nos sustém em cada acto de coragem.
É poesia que nos enche a sala de sangue, suor e lágrimas, que nos devolve o riso sempre que nos seja possível, que nos ampara o ridículo de tantos sonhos nossos. E leva-nos, filme adentro, à construção do sonho pelas mãos do amor.

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