SUPONHAMOS A SUPERIOR ARROGÂNCIA DO JUIZ

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Suponhamos que chego ao tribunal com as duas crianças e a mãe, levando a mais nova, de 9 anos, pela mão, para mais uma das mil e uma conferências que este processo virá a ter.

Suponhamos que sou advogada há alguns anos e já levei muitos meninos pela mão ao Tribunal, numa espécie de “laço de confiança” que anteriormente conquistei com eles, como garante de que tudo vai correr bem. Não sei porquê, mas assim que lhes pergunto se querem que lhes dê a mão, parece que sentem que um escudo invisível os cobre de imediato, fazendo com que se sintam logo mais protegidos.

Suponhamos que desta vez é diferente. Sinto um frio na barriga, sinto que estas meninas são minhas de certa forma e sinto uma insegurança terrível que procuro disfarçar.

Suponhamos que, enquanto percorro com elas o infinito corredor do Tribunal surge da mais nova, que levo pela mão, a pergunta: “Achas que vou ter de ir com o meu pai?”.

Bolas! Mas porque é que esta “ menina rapaz”, como eu lhe chamo, tem de estar a passar por isto? Penso eu. E agora? O que lhe vou responder? Sinto-me impotente e incapaz…. “ Vai correr tudo bem querida!”

Suponhamos que o Juiz é completamente desprovido de qualquer sensibilidade e desde logo, ainda nem sequer troquei uma palavra com ele, sou informada pelo funcionário “ O Sr. Dr. vai ouvir as menores sozinho!”

Suponhamos que fico alerta perante esta inflexibilidade e reajo de imediato “ bom, sozinho… sozinho não será bem o caso! Calculo que esteja presente o Magistrado do MP! Mas porque é que não podem os mandatários assistir também?”.

Fixando-me com um olhar incrédulo de espanto pela minha ousadia, adianta o funcionário “Aqui as coisas não são assim. O Dr. Juiz ouve os menores sozinhos, sem mais ninguém!”

Suponhamos que fico incrédula e levanto imediatamente a guarda, argumentando que em lado nenhum assisti a tal procedimento, e insisto em falar pessoalmente com omnipresente juiz que me recebe do alto da sua arrogância e insensibilidade, informando-me, assim que cruzo a porta, de que ali quem manda é ele e que ouve sempre as crianças sozinho sem mais ninguém, e que se eu não concordo posso sempre reclamar, mas que ali é assim!

Suponhamos que fico sem reação e não sei de hei-de argumentar, ou se simplesmente acatar, pois não convém desde já alimentar hostilidades; Definitivamente vamos ter sérios problemas! Não estamos no mesmo registo, isso é um facto! Opto por responder apenas: “ Bom dia, Senhor Dr.!” ao mesmo tempo que lhe estendo a mão. Fica surpreso, talvez estivesse à espera que eu reagisse de outra forma, mas não desarma e diz ao funcionário que mande entrar as menores. Assisto do lado de fora, no corredor, sinto que não fui capaz de as proteger, sinto uma enorme angústia ao ouvir os gritos dele e o choro delas, que saem da sala ávidas do meu abraço, primeiro uma e depois a outra.

Definitivamente não! Não é assim que se fazem as coisas! Não posso compreender este sádico prazer de atormentar crianças vindo de um analfabeto emocional que usa e abusa do poder da beca para impor inverdades absolutas, num completo desrespeito pelo tão aclamado “superior interesse da criança” que neste tribunal tem o nome de: superior interesse do pai do menor, porque o Sr. Dr. Juiz diariamente se vinga da sua própria experiência!