DIÁRIOS DE UM TEMPO ANTIGO

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Joel Neto (JN) não é o mais feminista dos escritores. Nos seus livros e textos há sobretudo histórias de homens e rapazes. Há mulheres também, claro. Em especial de dois tipos: as raparigas, mencionadas muitas vezes com malandrice e um piscar de olhos, e as senhoras, mães e ou esposas, evocadas geralmente com reverência. JN, como o próprio gosta de afirmar, com ironia e evidente prazer, já vai sendo um “homem antigo” (nasceu em 1974) e são recorrentes as referências a um passado mítico que não se sabe se chegou a existir ou é fruto de efabulações.

Ora eu também já vou sendo uma mulher antiga e apesar de ter os meus radares feministas bem afinados, nunca poderia ser indiferente à prosa poética dos diários rurais de JN, agora reunidos no livro A Vida no Campo. Não deixarei de estar atenta ao enviesamento (ao dele e ao meu) mas há textos que quero ler aos meus filhos. Há histórias de rapazes (e rapazolas) com as quais me identifico:

“Se eu tivesse um barco usava a boina do Corvo que a Catarina me tricotou. Bebia uísque de uma garrafinha metálica, trazida no bolso do blazer, e depois atracava num café do Porto Judeu, a dizer palavrões e a armar confusão. (…) Se eu tivesse um barco ia a São Jorge ver as fajãs, ao Pico ver as baleias e ao Faial ver as raparigas. Se eu tivesse um barco ia à Graciosa comer uma caldeirada, e essa era a primeira coisa que eu fazia.”

Aos meus filhos poderei falar de uma vida na aldeia, de que eles sabem alguma coisa, imaginando que estas missivas vêm de um tio que vive no campo, como a tia Odete, lá na Aldeia Viçosa, de volta das galinhas e da horta. Eles sabem (desconfiam) que há um mundo onde o tempo não se mede pelo relógio mas sim pelos ventos, pelas marés, pelas plantas e flores, pelos frutos dos pomares. Um mundo onde os vizinhos não se fecham em casa mal acabam a jornada, de costas voltadas e sem nada para partilhar. Mal trocando os bons-dias ou as boas noites. Aí poderia falar-lhes de uma coisa chamada comunidade, de um sentido de pertença e comunhão. Na cidade, isto são conceitos. No campo é o santo dia-a-dia.

Eles já ouviram muitas histórias contadas pela tia Odete. Estas não serão muito diferentes mas acresce-lhes o cosmopolitismo e a mundividência de quem viveu 20 anos na cidade e viajou pelo mundo antes de regressar a casa (aos Dois Caminhos, ilha Terceira, Açores).

Acontece que, por vezes, por mais mundo que tenhamos, o que buscamos é apenas a forma como a luz de uma tarde de domingo atravessa a persiana e o silêncio, incidindo numa colcha branca, imaculada. O quarto dos nossos pais. Dos nossos avós.

“No outro dia, pareceu-me detectar o mesmo cheiro doce no meu próprio quarto. Era domingo, e o Inverno tornara a abençoar-nos com sol. Os carros passavam esparsos lá fora e, de vez em quando, um cão latia no horizonte.

Deitei-me sobre a colcha quente e fechei os olhos.

Mas não. Não era aquele silêncio. Àquele silêncio, nunca mais o encontrei. Acho que é sobre ele que escrevo todos os dias.”

De modo que eu gostava muito que os meus filhos lessem estes textos. Porque são bons e belos e verdadeiros. Porque nos falam de árvores desconhecidas como as criptomérias, cuja madeira é mole mas resistente à humidade, e do perfume inebriante das flores brancas do jasmim ao cair da noite. E que vontade de ir à pesca, coisa que jamais fiz. Ainda irei a tempo?

“Está um fim de tarde frio e doce e eu só tenho vontade de ir à pesca no calhau. (…) Às vezes ficava horas sozinho, ouvindo rádio e tomando notas para o romance que um dia ira escrever. (…) Se desde então fui pouco à pesca do calhau, foi porque nunca consegui repetir a singeleza daqueles dias – a sua solidão, a sua esperança.“

A Vida no Campo

Joel Neto

Marcador / Presença

Nº páginas: 232

PVP: 17,50€